segunda-feira, 13 de março de 2017

É o fim.

Sou fã de rádio. Tanto como cidadão, como publicitário. Adoro ouvir e adoro criar para esse veículo.
Comecei a trabalhar com 14 anos e desde então meu café da manhã sempre teve como trilha sonora as vinhetas musicais das emissoras.
Uma das mais famosas é a Sinfonia Paulistana, de Billy Blanco, tema de São Paulo e do Jornal da Manhã da Joven Pan que, aliás, ouço até hoje, intercalado com os noticiosos das rádios Estadão, CBN, BandNews e Cultura.
Quando viajo de carro uma das minhas curtições é ficar passeando pelo dial e sintonizando emissoras locais, que sempre são uma deliciosa surpresa, seja pela programação, pelos curiosos apresentadores, locutores e anunciantes, e até pela participação ao vivo dos ouvintes, com seus gostos e problemáticas regionais.
Mas, na área musical minha preferida sempre foi a Eldorado FM de São Paulo. Um exemplo de luta na defesa da boa música nacional e internacional, dos compositores, músicos e instrumentistas, dos esportes (não só o futebol, que tem defensores de sobra) e sempre à frente das grandes causas, como por exemplo as campanhas pela preservação da Mata Atlântica e da limpeza do Rio Tietê, de quem foi parceira histórica.
Minha paixão pela Eldorado era tão grande que quando fui sócio e diretor de criação da agência Merit Comunicações, e atendendo voluntariamente a Fundação S.O.S. Mata Atlântica, dei um jeito de me aproximar dos Mesquita e passei a atender também voluntariamente a Eldorado FM, para quem criei o conceito “ ELDORADO FM – A RÁDIO QUE TOCA”.
Hoje, além dos noticiosos que continuo ouvindo tanto no rádio do banheiro como nos aplicativos do celular, um dos meus redutos para curtir boa música brasileira é a Nova Brasil FM (que Deus a livre e guarde).
Assim, é com extremo pesar que leio a notícia da “morte” da rádio Estadão, cuja frequência foi vendida ou arrendada (dá no mesmo) para um grupo empresarial religioso. Recentemente a Rádio MPB FM, fundada pelo grupo O DIA e administrada pelo grupo Bandeirantes desde 2012, também saiu do ar graças a uma irreversível crise financeira.
As dificuldades de caixa têm sido a explicação para todas essas derrocadas. Mas, é bom lembrar que os problemas financeiros são só a consequência do problema. A causa real é a crise de valores nas áreas da educação e da cultura, que vão transformando o showbiz numa grande feira evangélico-sertaneja.
É um fim trágico para quem tanto fez pela cultura do país. Torço para que as poucas opções que restam para quem gosta de ouvir música, notícias e variedades no rádio, não sucumbam à riqueza dos missionários e à pobreza de espírito do mercado.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Uma noite sem fim.

Uma noite sem fim.

Estávamos na cabine depois de termos jantado e dançado um pouco com um casal de italianos que conhecemos na ceia do primeiro dia do cruzeiro. Só queríamos deixar umas coisas no quarto e voltar para encontrar com eles na festa "anos 60" que estava começando no terraço do navio, em volta da piscina. Não gostei nada de ver aquele envelope no chão da cabine, passado por debaixo da porta. "To Mr. José M. C. Costa, cabine L30".

Senti que não era boa coisa. Não tinha deixado nenhum assunto pendente no Brasil e já tinha falado com a Marina pelo telefone, antes de embarcar em Gênova. Aparentemente, estava tudo bem. Depois de um suspiro e com um nó na garganta que já comprimia o ar que respirava, abri o envelope: era um fax da Merit assinado pela minha secretária, pedindo para eu ligar para minha irmã Laura ou para a Celeste, minha cunhada. URGENTE!!!!! Aquele urgente em maiúsculas, com tantas exclamações, soou como um grito dado a muitas milhas de distância algumas horas antes e que agora ecoava pela cabine L30, depois de atravessar o Atlântico. Um eco silencioso que entrou não pelos meus ouvidos, mas pelos meus olhos, desencadeando em meu cérebro uma corrente de pensamentos.

A primeira pessoa em que pensei foi na Marina que ficou em casa sozinha com a dona Chica, uma terceira mãe para ela (a segunda é a Rose). Mas como já disse, tinha falado com ela por telefone um dia antes. Prometeu dormir na avó todos os dias até terminar as provas e embarcar para o intercâmbio na Inglaterra.

Fiquei uns segundos com aquele fax gritando na minha mão enquanto pensava numa forma de responder, e conclui que não podia ser nada com a Marina. Não num fax enviado por uma secretária, pedindo para eu ligar urgente para a minha irmã ou minha cunhada. Era muita volta.

Ficamos em silêncio eu e a Rose, olhando um para o outro, mudos. Mais tarde ela me confessou que naqueles segundos ficou com medo de que tivesse acontecido alguma coisa com a mãe dela ou com seu irmão Cesar e não quiseram preocupá-la por causa do bebê (estava com dez semanas de gravidez) por isso mandaram o fax em meu nome. Mas isso também parecia improvável.

Pensei imediatamente no meu pai. A gente ainda não esquecera as duas semanas que ele ficou internado poucos meses atrás, a maior parte do tempo na UTI. Dobrei o papel já com as mãos úmidas e comecei a pensar no pior. Sim, porque só me avisariam caso acontecesse o pior. Fomos até ao balcão de informações e nos disseram que a sala de rádio, única forma de comunicação no navio, fechava às oito da noite. Expliquei que era uma emergência com o meu pai. (Claro, agora que estou colocando no papel a memória daqueles intermináveis minutos, lembrei que disse à moça da recepção, instintivamente, que se tratava de uma "emergência com o meu pai".

Ela nos indicou as escadas e pediu para subirmos um lance, onde ficava a sala de rádio, que uma pessoa já iria até lá para nos ajudar. Repeti para um rapaz de branco, muito educado e já sabedor da urgência do assunto, que eu precisava ligar para o Brasil. Na primeira tentativa para a casa da Celeste, deu ocupado. Na segunda e na terceira também. A cada vez minha certeza da gravidade da notícia era maior. Resolvei ligar para minha secretária.

Era meia noite e meia no meu relógio, sete e meia da noite no Brasil, cedo ainda para o ritmo da agência e portanto com muitas chances de pegar alguém que me dissesse alguma coisa. "– Mônica, o que aconteceu?" perguntei com a voz trêmula e em soluços, já sabendo a resposta. "– Cascão...foi seu pai...meu Deus não era eu que tinha que te dar esta notícia... foi seu pai Cascão, ele faleceu hoje por volta das três da tarde."

Foi como se uma barragem tivesse se rompido, dando vazão a uma enxurrada de lágrimas. "– Eu não queria te dar esta notícia, mas eu tinha que passar o fax, seu irmão e sua irmã acharam que seria muito pior esperar você voltar, o choque ia ser pior", disse ela.

Desliguei rápido e liguei para a minha cunhada, já com a cabeça explodindo. Assim mesmo perguntei "– Celeste, o que aconteceu?" como se precisasse que alguém me confirmasse para acreditar. A princípio ela manteve a voz firme: "– Seu pai faleceu hoje à tarde, Cascão. Ele ficou ruim de novo, sem ir no banheiro, com o intestino ruim, preso, aí levaram ele pro Hospital Bandeirantes...". Não havia necessidade de ouvir mais nada, os soluços dela se misturaram aos meus, eu ouvi a Rose dizer "– Oh, meu Deus!" e daí para a frente só parei de chorar na parte em que ela disse que minha irmã e minha mãe foram visitá-lo e estavam com ele quando deu o último suspiro.

Morreu tranquilo, em paz, sem falar nada, disse-me ela. Confirmei se ela tinha certeza de que minha mãe e a Laura estavam lá mesmo. Sim, estavam, ela me disse. E só saíram do quarto a pedido do médico, que logo depois confirmou sua morte.

Saber que elas estavam com ele me deixou mais aliviado. Eu estava no meio do mediterrâneo, longe, muito longe de casa. E acabara de perder meu pai sem ter tido ao menos a oportunidade de olhar para ele, segurar sua mão pela última vez e lhe dizer quanto o amava. Mas ele não estava sozinho. Agradeci a Deus.

O enterro seria no dia seguinte, parece que já haviam decidido. Assim mesmo comecei a pensar num jeito de voltar correndo para casa. Descer no primeiro porto, pegar o primeiro avião e voltar, quem sabe desse tempo. A mente é fantástica, resolve tudo, mesmo o improvável. O provável é que nem houvesse um aeroporto na próxima cidade onde o navio ia atracar. O provável é que todos estivessem querendo enterrar meu pai o mais rapidamente possível para diminuir o sofrimento da minha mãe.

O rapaz que nos ajudou com a ligação balbuciou alguma coisa como "meus sentimentos" e eu e a Rose descemos para a cabine. Sentamos num sofazinho e começamos a rezar em voz alta e a chorar. Rezar e chorar, rezar e chorar...

Porquê ele tinha escolhido aquela aquele dia, aquela hora, justo quando a gente estava longe e sem poder voltar?

Eu só me perguntava porquê, porquê, porquê? Quando me cansei de chorar e ainda sem resposta, pedi à Rose que me deixasse ir até o convés. Lá fora, no alto do navio, o mais perto possível do céu, talvez eu entendesse. Precisava ficar sozinho, precisava falar com ele, precisava de uma resposta. Ela concordou, respeitando a minha dor, mas naturalmente muito preocupada. Atravessei todos os imensos e estreitos corredores do navio - a escada para a parte superior ficava no lado extremo da nave - em passos lentos, enquanto os sons das festas, a música, o barulho dos copos, o riso e as gargalhadas dos turistas compunham uma trilha que em outra situação não me pareceria tão macabra.

Finalmente subi a última meia dúzia de degraus e sentei em uma das muitas cadeiras azuis e brancas, olhando para as estrelas no céu e para o brilho da lua que formava um extenso tapete prateado sobre as águas calmas do oceano. Ventava um pouco. E perguntei de novo, agora a Deus, porquê ele foi levar meu pai justo quando eu estava longe e impossibilitado de fazer alguma coisa por ele ou, que fosse, vê-lo pela última vez?

Não esperei nenhuma resposta, comecei novamente a rezar, repetindo as orações em voz alta e torcendo para que não aparecesse ninguém da tripulação para me fazer descer dali, porque eu não iria obedecer e também não tinha a menor disposição para explicar a quem quer que fosse o que estava fazendo ali à uma e meia da manhã.

Muitas coisas me passaram pela cabeça: que a Rose talvez tivesse razão ao dizer, no quarto, que a vida estava querendo nos mostrar - a nós que vivemos querendo ter o domínio sobre tudo - que não temos domínio sobre nada; que o senhor Adérito, chegada a sua hora, resolveu partir sem nos dizer adeus para poupar a nora, para evitar que ela passasse nervoso e prejudicasse seu neto; que a existência cobra uma morte para cada vida que se põe a caminho... e muitas outras coisas que não registrei.

Continuei a chorar e orar (um contém o outro!) até que uma grande ventania começou a arrastar as cadeiras de um lado para o outro, num balé lindo mas assustador, como linda e assustadora é a natureza, a vida e a morte.

O navio, que até aquele momento mais parecia um hotel encravado no chão, de tão tranquilo, também começou a balançar pra lá e pra cá. Fiquei com medo. Lembrei da Rose sozinha com o bebê dentro de si, eles dentro do quarto, o quarto dentro do navio, o navio dentro do mar. Desci.

Na volta passei por uma sala de leitura, vazia como todas as outras, onde havia uma tv ligada, mas sem programação. Apenas com o logotipo da TVE espanhola, captando o sinal da rádio nacional de Espanha. Parei instintivamente na frente do televisor e pude ouvir trechos de um daqueles programas que, no silêncio da madrugada, tratam de ajudar as pessoas que estão sozinhas e sofrem por alguma razão. O apresentador falava suavemente sobre uma técnica de relaxamento que, através de parapsicologia, podia nos colocar em contato com seres queridos que tivessem morrido.

Explicou como fazer esse exercício na frente de um espelho e eu ali ouvindo. Pensando no meu pai e ouvindo. Depois tocou uma música muito bonita e uma apresentadora atendeu um telefonema de uma ouvinte de Sevilha que havia perdido o marido fazia seis meses e queria ler uma mensagem que havia escrito para ele. A moça do programa consolou-a dizendo que duas pessoas que se amavam tanto não podiam estar tão longe assim e que onde estivesse ele estaria ouvindo e eles iriam se encontrar um dia.

Fui embora ouvindo o relato de outra mulher cuja voz anasalada foi se perdendo no ar atrás de mim...

Ao chegar ao quarto deitei-me ao lado da Rose e, cansado, adormeci. E sonhei. Como nunca havia sonhado em minha vida. Sonhei que fui até o velório e vi meu pai. Não deitado num caixão, frio e sem vida, mas sentado num banco que dava a volta na sala, ao lado das outras pessoas. Agachei-me na frente dele e segurei suas mãos, repetindo-lhe a pergunta ainda sem resposta: porquê resolveu ir embora daquele jeito, sem nos dar nenhuma chance?

Ele estava mais moço, vestia uma capa, calçava botas e, estranhamente, dava umas baforadas num charuto, vicio que nunca teve. Sua pele era branca e tinha um brilho especial, a ponto de tudo em volta dele parecer opaco e fora de foco. Não respondeu, apenas sorria com um sorriso largo que ele tinha quando estava muito alegre ou alguma coisa o divertia muito. Era como se tivesse acabado de me pregar uma peça. Mas eu sentia amor em seu olhar e alegria por me ver. Passou a mão suavemente pelo meu rosto. Em seguida levantou-se, com uma agilidade que eu aprendi a conhecer bem em outros tempos, e se esgueirou por um corredor, como se levitasse entre as pessoas. Fui atrás dele gritando "– pai, pai!" mas ele, literalmente, desapareceu no ar.

Um pouco triste, mas em paz, dirigi-me a outra sala ao lado e me sentei.

Sabia que no centro daquela sala havia um caixão e que todos ali estavam velando um corpo, mas eu não o via. Chegaram uns amigos, começaram a falar comigo e a dizer aquelas coisas que se dizem aos que ficam e acordei. Como também nunca havia acordado antes. Era como se tivesse sido arrancado à força do sonho, uma dor física na altura do coração e um pouco suado.

Sentia-me mais cansado do que quando adormeci. Mas tinha uma certeza: eu acabava de me despedir dele, no único tempo e espaço onde o tempo e o espaço não contam. Me senti melhor, olhei para a Rose ao meu lado, lembrei dos sonhos dela com o seu pai e voltei a dormir, na esperança de encontrar-me novamente com ele. Claro que em vão.

O dia seguinte amanheceu ensolarado. Fomos acordados pelo alto-falante avisando que, após a liberação das autoridades portuárias, poderíamos descer à terra. Contei o sonho para a Rose e falamos um pouco sobre o que vi e senti na noite anterior. Ela lembrou também que no dia anterior, segunda feira, enquanto meu pai estava no hospital, estávamos em Capri, o primeiro lugar onde o navio parou. A ilha era linda, o dia estava lindo, vimos lugares lindos, mas a gente não estava bem. Ela disse várias vezes que não estava bem. Que estava triste por estar num lugar tão maravilhoso e não estar conseguindo aproveitar como gostaria. Eu pensei que era por causa do calor e do bebê.

Fomos com essas lembranças e esses pensamentos para o café da manhã. Mais ou menos às oito desembarcamos e saímos a caminhar pela cidade, sozinhos, sem guia e sem excursão.

Estávamos em Palermo. A cidade pareceu-me feia, mas não falei nada. Andamos um pouco mais – todo porto é feio – quem sabe mais para o centro, longe dali. Carros e mais carros, centenas de vespas zunindo seus escapamentos, motoristas em carros amassados xingando uns aos outros (entendi melhor a influência italiana sobre São Paulo), filas duplas, motonetas em cima das calçadas, ruelas estreitas, escuras, prédios velhos, escuros, confusão e calor. Todos os carros estacionados, cobertos por densa camada de pó, pareciam ter sido abandonados há muito por seus donos. Andamos umas duas horas, eu fazendo as contas do fuso horário e esperando que amanhecesse no Brasil para telefonar, saber se tinham adiado o enterro, já que eu falei que tentaria voltar. A Rose cansada, passando mal com o calor e impressionada com a paisagem da cidade. Mas também não falou nada. Paramos para comprar água e eu tomei um expresso. Andamos mais um pouco procurando a central telefônica. Encontramos uma às onze e meia da manhã, seis e meia da tarde no Brasil. Liguei primeiro para o Sr. De La Via, amigo de tantas horas e meu orientador espiritual, já que eu não sabia o que fazer. Ele disse que já tinha falado com a minha família, que o enterro ia ser mesmo ao meio dia, que todos em Cafh já estavam fazendo as orações que sempre fazemos e se estendem por sete dias quando um parente de algum membro falece e que não adiantava eu voltar porque em relação ao fato em si eu não podia fazer mais nada,e que a única coisa que realmente eu podia fazer era orar e me recolher o mais possível neste dia de terça-feira 17 de junho, dia do enterro do meu pai.

A seguir liguei rápido para tentar pegar meu irmão Luis em casa. Minha cunhada atendeu e disse que todos estavam no velório do Cemitério do Morumby que o enterro ia ser ao meio dia. Repetiu que era besteira eu voltar, não ia chegar a tempo e não havia nada que eu pudesse fazer. Liguei para a vó da Marina, para falar com ela, mas tinha acabado de sair. Ia fazer prova e voltar para casa, para ir ao enterro do avô. Ela falou que queria que eu estivesse lá.

A impotência doeu quase tanto como a perda. Me convenci que não havia nada mesmo que eu pudesse realmente fazer. Saímos da telefônica e caminhamos mais uns quatro ou cinco quilômetros de volta ao navio. Na noite anterior, depois de descer do convés, tinha escrito uma mensagem. Passei logo cedinho por fax para minha secretária e para minha casa. Recomendei desesperadamente que a entregassem à minha filha Marina para que a lesse durante o velório ou no momento do enterro. Foi a única maneira de me sentir presente e de juntar minha alma e minha dor à de todos os que estivessem velando meu pai.

No quarto voltamos a ch-orar e fiquei o dia inteiro sem sair, ver ou falar com ninguém.

À noitinha fomos jantar. Pedi à Rose que não contasse nada ao casal de italianos nem ao pessoal da mesa, pra evitar o mal estar. Eles perguntaram porquê a gente não voltou para a festa dos anos 60 e a gente inventou uma desculpa qualquer.

Hoje, quarta feira, 18 de junho, o navio parou cedinho na Tunísia e fomos com o grupo conhecer a cidade. Voltamos ao meio dia, almoçamos e enquanto espero para tentar ligar novamente para o Brasil – preciso falar com a Marina e pelo menos com a minha irmã ou meu irmão – me deu vontade de escrever, lembrar cada segundo e registrar tudo neste computador da Rose, para não esquecer nunca mais o que aconteceu ontem, naquela noite sem fim.

Agora eu vou lá em cima tomar um Jack Daniels, outra coisa que eu acho que meu pai nunca fez. Vou fazer um brinde a ele, porque meu pai não morreu, ele vive em mim, em nós.

Em algum lugar do oceano entre a costa da Africa e a Espanha, 20:30 horas, do dia 18 de junho de 1997.


Porquê a água do mar é salgada?

Hoje, 3 de maio, o Facebook me lembrou de algo que escrevi há dois anos atrás sobre a morte do meu pai. Achei melhor transcrever aqui no blog, pra eternizar essa lembrança em algum lugar além do meu cérebro.

Ontem à noite recostado na cama, depois de alguns exercícios e orações, coloquei meu fone de ouvido e adormeci ouvindo minha play list "keep calm". Devo ter ido tão longe e tão fundo que acordei às 4h30 como se tivesse dormido 12 horas. Sem sono, fiquei um pouco acordado e, não sei porquê, lembrei do meu pai. Se estivesse vivo, estaria com 106 anos (nasci temporão, ele já tinha 50). Sr. Adérito, a calma em pessoa. Só o conheci vivo. Recebi a notícia de sua morte pela voz de uma secretária, na cabine de comando de um navio, à 1h da manhã do dia 18 de junho de 1997, em algum lugar do mediterrâneo entre o norte da África e o sul da Itália. A notícia interrompeu uma noite de festa estilo anos 60 onde eu e a Rose, grávida da Olívia Costa, nossa primeira filha, fazíamos uma das coisas que nos dá um grande prazer: dançar. Não é preciso dizer que no dia seguinte, quando o navio atracou em Napoles, vaguei desesperadamente pela cidade, pendurado num fio de esperança de descobrir uma forma de voltar ao Brasil a tempo de me despedir dele. Em vão. O falecimento havia sido no dia anterior e o sepultamento marcado para o meio dia seguinte. Fiquei assim na cama por alguns momentos, depois levantei, continuei ouvindo minha música, fui até à cozinha, fiz um chocolate quentinho e me deu vontade de compartilhar com vocês, meus amigos que a esta hora dormem, a mensagem que enviei pelo fax do navio para que fosse lida pela Marina Costa, no velório do avô:

"Meu pai, minha mãe, meus irmãos, Marina querida:
Acho que a água do mar é salgada por causa das lágrimas derramadas por tantos portugueses afogados em saudades dos seus, e pela impotência contra a fatalidade, o inevitável.
Estou aqui no meio da imensidão azul, chorando por ter perdido o convívio de um pai a quem amava e admirava em seu silêncio e aceitação serena da vida.
E choro também por não poder estar aí com vocês. 
Ontem à uma da manhã, depois de receber a notícia, subi ao convés, o mais próximo do céu que pude, e perguntei a Deus, à lua, às estrelas, porquê me afastaram dele neste momento? E pareceu-me ouvir a voz do pai dizendo: "vai, vai-te embora, não te preocupes..." 
Depois uma grande ventania começou, arrastando para um lado e para o outro as cadeiras do convés, num balé ao mesmo tempo lindo e assustador.
Mas a natureza é assim, linda e assustadora, como a vida e a morte.
Quando voltei para o quarto, cansado, depois de chorar e orar...adormeci. E sonhei.
Sonhei que estávamos sentados ao lado de vocês, ele com um sorriso lindo e um brilho especial no rosto. Perguntei-lhe mais uma vez porquê fez isso, por quê numa hora em que eu estava tão longe. E ele apenas sorria, sorria como se tivesse acabado de me pregar uma peça. Mas o seu sorriso era de amor.
A seguir levantou-se, com uma vitalidade e uma rapidez que eu aprendi a conhecer tão bem em outros tempos, e desapareceu entre as pessoas presentes ao seu próprio velório, enquanto eu corria atrás dele gritando "pai! pai! pai!".
Foi-se, como que levitando, enquanto olhava para trás e sorria para mim...
Está amanhecendo e eu ainda não sei o que vou fazer. Não quero que prolonguem o sofrimento e a dor esperando por mim. Porque não tenho certeza se conseguirei chegar pra lhe dar um último beijo.
Por isso, quero abraçar minha mãe, dizer-lhe que onde meu pai estiver, estará agradecendo sua dedicação e sua paciência. E, certamente, protegendo-a com o manto de seu espírito.
Eu, a Rose e a neta que ele não esperou nascer, mas que já a está protegendo também desde agora, estamos tristes. Mas em paz. E juntamos nossos corações aos de vocês para que a Mãe Divina o receba em seus braços e o Pai Celeste guie sua alma para a eternidade.
Amamos vocês. Cascão e Rose, 18 de junho de 1997."

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA!

A vida de quem tem o privilégio de se alimentar duas ou três vezes por dia, e ao mesmo tempo nutre a consciência sobre a importância de preservar a própria vida e a do planeta, não está fácil.
De um lado vem a OMS e amaldiçoa as carnes processadas (bacon, salsichas e embutidos) jogando-as na categoria dos alimentos que favorecem o desenvolvimento de vários tipos de câncer, para fazer companhia ao cigarro, às bebidas alcoólicas, ao amianto e à exposição ao sol “in natura”.
Por outro lado, agiganta-se em todo o mundo o tsunami vegetariano, com argumentos irrefutáveis – como os que afirmam que os cerca de 60 bilhões de animais abatidos todos os anos, além de revelarem uma falta de ética e de lógica impressionantes, já que escolhemos alguns animais para nos fazer companhia dando-lhes amor e conforto, e matamos outros para saciar nosso apetite e deleitar o paladar – seriam os grandes responsáveis por problemas que vão do aumento do efeito estufa às crises hídricas e até a fome.
Segundo os veganos metade da produção mundial de grãos é destinada à pecuária, chegando em alguns casos, como os da soja, milho e aveia, a 80%. Ou seja, em vez de estar sendo servida aos humanos essa comida estaria alimentado os bois e vacas, que vão virar comida depois. Afirmam também que os recursos usados para alimentar 2,5 bilhões de pessoas com produtos animais dariam alimentar 20 bilhões de vegetarianos. Já em relação aos recursos hídricos, enquanto a produção de 1 kg de trigo exige 132 litros de água e de 1 kg de arroz 2.500 litros, para a produção de 1 kg de carne seriam gastos em média 15.000 litros de água. Amaldiçoados estão também todos os subprodutos da carne, já que o leite e seus derivados só são possíveis dentro da lógica macabra dessa cadeia.
Ok, então vamos comer apenas frutas e legumes que são bons e não fazem mal para a saúde. Nem tanto, nem tanto.
A farra dos agrotóxicos no Brasil, usados para deixar mais coloridos e suculentos aqueles melões, tomates e rabanetes que nos fazem babar na feira e nos hortifrútis da vida, faz com que cada brasileiro consuma um galão de cinco litros de veneno a cada ano.
Segundo especialistas da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) "os dados sobre o consumo dessas substâncias no Brasil são alarmantes". Somos campeões mundiais na categoria desde 2008. E com estímulo governamental, já que mais da metade dos agrotóxicos permitidos pela legislação no Brasil hoje são banidos em países da União Europeia e nos Estados Unidos. O governo brasileiro não só permite os pesticidas proibidos em outros países, como ainda os exonera de impostos, concedendo redução de 60% do ICMS e isenção de PIS, COFINS e IPI à produção e comércio dos pesticidas, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT).
Bem, já que nesse terreno natureba a coisa também não está fácil, então o jeito é nos refugiarmos nas padarias e nas cantinas, consumindo pão e macarrão em profusão, sem correr riscos de nenhuma espécie, certo?
Ah, tolinho, vai nessa. O crescente número de celíacos e o mal que o glúten parece estar causando até mesmo em quem não é alérgico a essa substância, recomendam cautela. Fora os riscos que a obesidade, amiga das dietas baseadas em carboidratos, traz para suas vítimas, tais como diabetes, problemas cardíacos, de pressão alta e outras doenças crônicas decorrentes. Quem se der ao trabalho de ler o livro Barriga de Trigo do médico americano Wiliam Davis, nunca mais entra numa padaria, cantina ou pizzaria. Entre outras coisas ele afirma, fundamentado em décadas de estudos clínicos, extensa bibliografia e na sua experiência direta com os pacientes, que parar de comer trigo – mesmo o integral, considerado mais saudável – além de ajudar a perder peso e reduzir gordura localizada, ajuda a prevenir e eliminar vários problemas de saúde como artrite e dor nas juntas, asma, inchaços, enxaquecas, refluxos ácidos, alguns tipos de urticárias, câncer e até problemas de pele, como a acne.
Segundo o Dr. Davis, para aumentar a produtividade e a resistência das espigas à seca e às pragas, após a segunda guerra a ciência tratou de realizar uma série de cruzamentos e modificações genéticas nas linhagens do trigo, com resultados desastrosos para a saúde humana.
Ou seja, estamos no mato com o cachorro, o gato, o papagaio e toda a flora e fauna que ameaça a nossa sobrevivência.
Mas é claro que este tiroteio nutricional só preocupa, como eu disse no início, aos 6 bilhões de pessoas que fazem pelo menos uma refeição por dia. Quanto aos outros 1 bilhão que passam fome...bem, que tal a gente mudar de post?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

As duas melhores reflexões que li sobre o Facebook.

http://www.baciadasalmas.com/uma-internet-com-fronteiras-como-e-nao-estar-no-facebook Sobre o Facebook 1

https://www.facebook.com/jarbas.agnelli/posts/10154314125716124 Sobre o Facebook 2

Obrigado Paulo Brabo e Jarbas Agnelli por compartilharem com seus amigos e/ou leitores sua capacidade de observação e análise. Tomei a liberdade de reproduzir os links aqui (que são o próprio crédito) sem qualquer comentário – que não cabe – também para ter acesso a esses textos sempre que precisar deles.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

CÉREBRO NÃO TEM TEMPLATE.

"Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele." Henry Ford

A quantidade de informação disponível na internet, somada à profusão de sites que oferecem praticamente de tudo, e a preço de banana, tem levado alguns empresários e executivos a achar que é bobagem pagar uma consultoria ou agência para cuidar do marketing e da comunicação de seus negócios.

Aparentemente, tudo que precisam está na rede. E grátis! É só baixar e usar. Quando muito, pagar uma pequena taxa pelo download e pronto. Tem template de logo, template de cartão de visita, template de site, template de blog, template de plano de comunicação, template de power point e até template de business plan. Só precisa preencher os espaços em branco. E se não há tempo nem pra isso, basta pedir a um sobrinho ou ao filho de um amigo que “mexe com essas coisas” e o assunto está resolvido. Só que não.

O pensamento precede a linguagem. E a ação.

De que adianta ter os templates e os espaços em branco se você não sabe o quê colocar neles? E nesse sentido os computadores não vão ajudar muito. Porque computadores ainda não pensam por nós.

Isso significa que templates não servem para nada? Claro que não. Uma boa parte dos modelos disponíveis são bem pensados, às vezes têm um bom design e podem ajudar você a apagar um incêndio, a cumprir um prazo apertado ou a produzir um material bonitinho para aquele evento sem precisar fazer muito investimento. Eu mesmo recorro a eles algumas vezes.

Mas, entre um template que serve para tudo e para todos, e uma solução sob medida pensada para o seu negócio, há uma distância enorme. Afinal, o histórico da sua empresa é único. O ciclo de vida do seu produto é único. O momento que o segmento de mercado onde você atua é único, e a identidade que sua empresa precisa criar nem se fala. A solução para o seu problema, portanto, também deve ser única.

Às vezes um olhar de fora muda tudo.

Outro aspecto a ser considerado na decisão pela contratação de um prestador de serviço, é o fato de que quem está muito envolvido no problema raramente conta com a perspectiva necessária para enxergar a melhor solução.

Vou contar uma historinha rápida. Certa vez tive um cliente que importou uma linha de interruptores e tomadas elétricas da matriz, na Itália, para venda no Brasil. Produto classe AA, de altíssimo valor agregado, com muita tecnologia, design avançado, tinta automotiva e cores exclusivas. O preço, premium, óbvio. Porque não se tratava de um simples interruptor ou tomada. Era um item de tecnologia doméstica e elemento de decoração do ambiente. Enfim. Já havia sido feita uma campanha, produzidos materiais gráficos de excelente nível e nada da linha decolar. O PDV também não conseguia entender nem explicar a razão do fracasso de um produto tão sensacional. Às vezes o consumidor, o decorador ou o arquiteto responsável pela obra compravam uma ou duas peças, mas não ampliavam nem repetiam a compra.

Durante uma reunião em que se buscava desesperadamente uma explicação para o fenômeno, pedi pra ir ao banheiro. No caminho, passando por salas e corredores percebi que todos os interruptores e tomadas da linha instalados ali estavam com o nome e a marca do fabricante (impressos num dos lados chanfradinho do produto) na vertical, dificultando a leitura. Alguns até invertidos, de cabeça pra baixo. De volta à reunião perguntei porquê. Ao responder minha pergunta, o cliente deu a resposta para o problema: “porque as caixas elétricas no Brasil são instaladas todas na vertical, e na Itália na horizontal. Mas o produto pode ser instalado em qualquer posição, porque encaixa e funciona do mesmo jeito.” Continuei: “Mas isso já foi dito ou mostrado na comunicação em algum momento?” Silêncio na sala. “Não, acho que não…” respondeu o diretor de marketing. Ah, ok. Então que tal a gente fazer isso? Seguramente as pessoas estão comprando o produto e ao chegar em casa e ver que a posição "normal" da peça – horizontal, não serve para a caixa que ele tem na parede - vertical. 

A campanha e os materiais gráficos produzidos a seguir mostravam os produtos na posição horizontal, mas também na vertical, deixando claro que apesar de nossas caixas elétricas serem diferentes das da Itália, o produto funcionava e podia ser usado em qualquer posição, sem problema. O catálogo seguinte mostrava isso e ainda trazia alguns produtos em tamanho natural, com picote, para serem destacados e colocados em cima dos interruptores atuais, permitindo ao consumidor sentir o efeito na decoração.

Evidente que não houve por parte do cliente a devida atenção quando resolveu simplesmente importar os produtos prontos, sem nenhuma adequação prévia para o nosso mercado. Acho que o produto parou de ser importado ou foi finalmente adaptado e relançado. Mas com um pensamento fora da caixa (literalmente neste caso) e uma mudança na comunicação as vendas reagiram e sairam do vermelho.

Neste e em muitos outros casos que, tenho certeza, cada um dos leitores poderia relatar neste espaço, não há template que resolva o problema. O que resolve é a observação acurada, o pensamento estratégico e uma solução sob medida. E para isso não há template.