terça-feira, 12 de outubro de 2010

Fazer um uso sábio dos recursos disponíveis

Em 8 de janeiro de 2009 um terremoto de 6,2 pontos na escala Richter atingiu duramente o povoado de Cinchona, a 1300 m de altitude, na região montanhosa de Eredia, na Costa Rica, provocando uma devastação poucas vezes vista mesmo num país acostumado a fortes abalos sísmicos.

A 1 km dali está localizada a Comunidade de Cafh e também a sede da El Ángel, fábrica de alimentos mantida e administrada pelos membros dessa Comunidade*.

Graças ao tempo recorde em que foi feita a recuperação das instalações da fábrica, bem como pelo apoio material e emocional dado pelos membros de Cafh aos funcionários e à população da região, a ONU conferiu um prêmio especial à El Ángel no Dia Mundial da Alimentação.

Na ocasião, o atual Diretor Espiritual mundial de Cafh, Sr. Jose Luis Kutscherauer, que viveu muitos anos nessa Comunidade e é um dos seus principais mentores, proferiu algumas palavras aos presentes, fazendo uma referência ao que chamamos em Cafh de 'ECONOMIA PROVIDENCIAL', um conceito e uma atitude que procuramos viver em nossa vida.

Se você preferir ler o discurso original em espanhol, acesse: http://nacionesunidas.or.cr/index.php?option=com_content&task=view&id=255&Itemid=121

* Todas as Comunidades de Cafh são auto-sustentáveis e seus membros, a par da vida de recolhimento e desenvolvimento espiritual, se dedicam a diversas atividades, tais como o ensino infantil, panificação, produção de doces, geléias e outros alimentos, agricultura, etc.


"É uma honra para mim representar a El Ángel neste evento e receber, em nome dos nossos parceiros e colaboradores, este prêmio que nos foi concedido.

Frente a uma instituição da importância da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, o nosso trabalho pode parecer insignificante. No entanto, é nossa convicção fazer em cada um de nós, desde o lugar que ocupamos na sociedade, o melhor esforço para realizar em si mesmo e em nosso entorno, o que queremos que aconteça no mundo.

Chegamos ao país em 1977 e encontramos um povo maravilhoso que teve a audácia de construir um destino de paz, nesses anos fatídicos para a América Latina e o mundo. Encontramos um pequeno grupo de costarriquenhos que nos acolheu de braços abertos em Cinchona, então, uma pequena aldeia de cerca de seis famílias.

Impressionados com a beleza deslumbrante da floresta nublada da Costa Rica, nos apaixonamos pelo país e sua gente, pelos seus recursos naturais, e pelo que nós consideramos seu principal recurso: o espírito pacífico e ousado que habita em cada um dos cidadãos costarriquenhos.

Vimos, desde este pequeno canto do mundo, aquilo que poderia ser demonstrado de forma evidente: que se podem dar passos certeiros na construção da paz e de uma sociedade melhor para todos.

Os membros do grupo El Angel somos pessoas de paz, de trabalho e de amor por uma vida simples e comprometida com o meio ambiente. E praticamos o método de vida de Cafh, um caminho de desenvolvimento espiritual que se baseia em princípios simples:

  • Deus é o princípio fundamental do Universo
  • Como seres humanos temos o direito à liberdade de pensar e decidir sobre nossas vidas sem a interferência de outros
  • O direito à liberdade implica responsabilidade no exercício dessa liberdade. O desenvolvimento da responsabilidade faz com que o exercício da liberdade dê frutos de paz e felicidade
  • A responsabilidade é desenvolvida por meio da expansão da consciência e de uma compreensão mais universal do mundo e da vida

Todos os seres humanos contamos com o livre arbítrio, que nos abre um campo de possibilidades insuspeitadas até para nós mesmos. Acreditamos que possuimos dois bens básicos que permitem gerar um processo positivo para o desenvolvimento da sociedade:

  • Por um lado, o nosso estado de consciência, que nos dá o grau de sabedoria que orienta nossas escolhas, decisões e ações
  • E por outro lado, os recursos, ou seja, os bens materiais, mentais e espirituais que todos os seres humanos dispomos para viver e nos desenvolvermos, e que são o capital que temos para realizar o que a nossa consciência nos diz para fazer, pensar ou sentir.

É neste campo, dos recursos, onde lidamos em Cafh com o conceito de Economia Providencial, e que buscamos implementar em todas as ações desenvolvidas pela El Ángel.

Economia Providencial é, para nós, o uso sábio dos recursos disponíveis, tanto no âmbito pessoal como social, para o adiantamento pessoal e o bem de todos os seres humanos.

Dizemos "economia" porque se trata da produção, conservação e multiplicação dos recursos necessários e úteis ao desenvolvimento de cada ser humano. E dizemos "providencial" no sentido de que provê o que nós necessitamos, bem como todos os seres, para alcançar o fim desejado, neste caso, a plena realização das nossas melhores possibilidades de vida sobre a Terra.

A Economia Providencial prevê a atuação em três áreas:

  • A utilização dos recursos disponíveis
  • A reserva ou poupança desses recursos
  • A multiplicação dos recursos

Este conceito, para ser implementado, pressupõe alguns requisitos básicos:

  • O sentimento de posse é substituido pelo sentido de participação
  • O direito de usufruir dos recursos é acompanhado por um senso de responsabilidade na utilização dos bens sociais e pessoais
  • A utilização e exploração dos bens pertencentes à Terra tem que considerar as necessidades sociais de uso e conservação desses bens
  • os bens pessoais são próprios, mas dentro de um marco de referência do bem comum

De nossa perspectiva, há vários caminhos para aliviar a fome no mundo quando aprendemos a focar nossa ação de forma participativa e inclusiva.

Organizações como a FAO, que proporciona recursos para que as pessoas e os países ajudem a si mesmos; que luta para melhorar a nutrição, aumentar a produtividade agrícola, elevar os padrões de vida das populações rurais e contribuir para o crescimento da economia mundial, é um desses importantes caminhos.

Mas nem a FAO, nem qualquer outra instituição, pode fazer o que só a vontade pessoal focada no bem comum é capaz.

Pertencemos a uma minoria da humanidade que teve a graça de ser abençoada com uma família que nos alimentou, cuidou e formou; com uma alimentação adequada para desenvolver todas as nossas faculdades, com educação, com um espaço para desenvolver-nos, com uma moradia e com liberdade de pensamento e ação. Se nós, como grupo privilegiado de seres humanos, a partir do nosso lugar, da nossa casa, abrimos as mãos para devolver um pouco do muito que temos recebido da sociedade, iremos, sem dúvida, dando forma ao sonho de uma sociedade mais justa e equitativa. Este sonho está ao alcance das nossas mãos e da nossa vontade.

Ao tomar consciência da relação que estabelecemos com nossas necessidades e com nossos bens, fruto do nosso trabalho, podemos melhorar o nosso senso de responsabilidade social. É essencial observar que a nossa felicidade é incompleta sem a felicidade de todos.

Em cada um de nós há uma fonte permanente de bens de todos os tipos. Este dom da vida continua e se multiplica quando evitamos aplicar a nossa vontade apenas para satisfazer os nossos desejos pessoais, sem levar em conta as necessidades dos outros. Pensamos que é responsabilidade de cada ser humano deixar este rastro de responsabilidade social como um bem para a humanidade.

A nossa proposta em Cafh e na El Ángel, como mencionei anteriormente, é vivermos em nós mesmos o que desejamos para todos os seres humanos. Com este espírito, nos animamos a pensar um pouco além da realidade que hoje vivemos neste mundo de sofrimento.

- Em um mundo onde o denominador comum é buscar apenas o ganho pessoal, nos dedicamos a que nosso trabalho possa impactar positivamente o meio em que vivemos.

- Em um mundo dividido, onde se luta pelo predomínio das próprias idéias, nós escolhemos o caminho mais amplo de aceitar a diversidade, onde cabem todas as formas de sentir e pensar.

- Em um mundo onde predomina a atitude de exigir que os outros mudem, procuramos desenvolver o nosso trabalho em paz e harmonia com todos os seres e com o meio ambiente.

- Em um mundo onde a violência é a forma mais comum de resolver conflitos e diferenças, preferimos o trabalho silencioso em nós mesmos, porque acreditamos que é a maneira mais simples de caminhar em direção à construção de uma realidade mais acorde com nossos sonhos.

Com a graça divina e o esforço humano, o caminho para uma sociedade mais harmoniosa, pacífica e justa, não é apenas um sonho, uma utopia. É uma realidade que pode ser construída.

Muito obrigado."

José Luis Kutscherauer

domingo, 19 de setembro de 2010

É muito pra cabeça!


Ontem ao sair para o supermercado minha filha pediu: "Pai, traz um shampoo pra mim. Cabelo oleoso, tá?"

Depois de duas horas no super – eu demoro mesmo, vejo data de validade, leio tabela nutricional, analiso a embalagem, comparo preço, neura de consumidor publicitário – e já com o carrinho cheio na fila do caixa, lembrei que tinha esquecido o shampoo. Avisei a moça "vou pegar uma coisinha ali e já volto."

No corredor de higiene pessoal meus olhos percorreram a prateleira dos shampoos...cabelos oleosos...cabelos oleosos...cabelos oleosos... Ué, não fazem mais shampoo pra cabelos oleosos?

Bem, o jeito é levar outro. Mas, qual? Vejamos, seria o caso de um S.O.S. Reconstrução Estrutural? Deus do céu!!! S.O.S. Reconstrução Estrutural parece título de campanha de ajuda às vítimas do furação katrina. Não, acho que o cabelo dela não está assim tão prejudicado. Vejamos esse aqui: Liso Extremo? Também não, de criança ela tinha até cachinhos, definitivamente não é liso extremo. Cachos Comportados? Hmmm, teria de perguntar "filha, seu cabelo tem obedecido ultimamente ou anda malcriado?" E este: Anti-Armado. Pensei, o que seria exatamente um cabelo anti-armado. Seria o mesmo que liso extremo, mas pertencente a outra facção?


Lembrei do carrinho na fila. Acelerei a busca: shampoo Anti-Envelhecimento...não, ela é quase uma criança ainda. Dano Acumulado? Nem tentei raciocinar. Cabelos indisciplinados? Tenho a impressão de que já passei por aqui...não, o outro era cachos comportados, tou ficando zonzo. Anti-frizz, Cachos Rebeldes, Loiros Indefinidos, Pretos Luminosos...socooooorrrrroooo!



Voltei pro caixa sob o olhar recriminatório dos meus companheiros de fila e comecei a passar as compras. Frustrado e me sentindo um incompetente – imagina isso, um pai que não consegue comprar um simples frasco de shampoo pra filha.

Velhos tempos em que a única dúvida possivel era saber qual o seu tipo de cabelo: seco, normal ou oleoso. É muita segmentação pra minha cabeça.