terça-feira, 3 de maio de 2016

Uma noite sem fim.

Estávamos em nossa cabine depois de termos jantado e dançado um pouco com um casal de italianos que conhecemos durante a ceia da primeira noite. Fomos deixar umas coisas no quarto e voltar para encontrar com eles na festa "anos 60" que estava começando no terraço em volta da piscina. Não gostei nada de ver aquele envelope deslizando no chão, passado por debaixo da porta. "To Mr. José M. C. Costa, cabine L30".

Senti que não era boa coisa. Não tinha deixado nenhum assunto pendente no Brasil e já tinha falado com a minha filha Marina pelo telefone antes de embarcarmos em Gênova. Depois de um suspiro e já com um nó na garganta que comprimia o ar que respirava, abri: era um fax da Merit assinado pela secretária pedindo para ligar para minha irmã Laura ou para a Celeste minha cunhada. URGENTE!!!!! Aquelas maiúsculas, com tantas exclamações na sequência, soaram como um grito emitido horas antes a muitas milhas de distância e que, depois de atravessar o atlântico, agora ecoava na cabine L30. Um eco silencioso que entrou não pelos meus ouvidos, mas pelos olhos, desencadeando em meu cérebro uma corrente de pensamentos desordenados.

A primeira pessoa em que pensei foi na Marina que tinha ficado em casa com a dona Chica. Mas...não, tinha falado com ela um dia antes, prometeu dormir na avó todos os dias até terminar as provas e embarcar para o intercâmbio.

Aquele fax ficou gritando na minha mão. Enquanto segurava a mensagem e pensava no que fazer, conclui que não podia ser nada relacionado com a Marina. Não num fax enviado por uma secretária, pedindo para eu ligar urgente para a minha irmã ou minha cunhada. Era muita volta.

Ficamos em silêncio, eu e a Rose, olhando um para o outro, mudos (mais tarde ela me confessou que naqueles segundos ficou com medo de que tivesse acontecido alguma coisa com a mãe dela ou com o irmão e não quiseram preocupá-la por causa do bebê – estava de dez semanas – por isso mandaram o fax no meu nome...mas também isso parecia improvável).

Pensei imediatamente no meu pai. A gente ainda não esquecera as duas semanas que ele havia ficado internado meses antes, a maior parte do tempo na UTI. Com as mãos já meio úmidas dobrei o papel e comecei a pensar no pior. Porque, claro, só tentariam falar conosco no meio do oceano se acontecesse o pior. Fomos até ao balcão de informações e nos disseram que a sala de rádio, única forma de comunicação no navio, fechava às oito da noite. Expliquei que era uma emergência com o meu pai (agora que estou colocando no papel a memória daqueles intermináveis minutos, lembrei que disse à moça da recepção, instintivamente, que se tratava de uma "emergência com o meu pai..

Ela nos indicou as escadas e pediu para subirmos um lance, onde ficava a sala de rádio, que uma pessoa iria até lá para nos ajudar. Repeti para um rapaz de branco, muito educado e sabedor da urgência do assunto, que eu precisava ligar para o Brasil. Na primeira tentativa para a casa da minha cunhada, deu ocupado. Na segunda e na terceira também. A cada vez minha certeza da gravidade da notícia era maior. Resolvei ligar para a minha secretária.

Era meia noite e meia no meu relógio, sete e meia da noite no Brasil, cedo ainda para o ritmo da agência e, portanto, com muitas chances de haver alguém que me dissesse alguma coisa. "– Mônica, o que aconteceu?" perguntei com a voz trêmula e em soluços, já sabendo a resposta. "– Cascão...foi seu pai...meu Deus não era eu que tinha que te dar esta notícia...foi seu pai Cascão, ele faleceu hoje por volta das três da tarde."

Foi como se uma barragem tivesse se rompido dando vazão a uma enxurrada de lágrimas. "– Eu não queria te dar esta notícia – disse ela, mas eu tinha que passar o fax, seu irmão e sua irmã acharam que seria muito pior esperar você voltar, o choque ia ser pior".

Desliguei rápido e liguei para a minha cunhada, já com a cabeça explodindo "– Celeste, o que aconteceu?", como se precisasse que alguém me confirmasse para acreditar. Ela manteve a voz firme: "– Seu pai faleceu hoje à tarde, Cascão. Ele ficou ruim de novo, sem ir no banheiro, com o intestino preso, aí levaram ele pro hospital...". Não havia necessidade de ouvir mais nada, os soluços dela se misturaram aos meus, ouvi a Rose dizer "– Oh, meu Deus!" e daí para a frente só parei de chorar na parte em que minha cunhada disse que minha irmã e minha mãe foram visitá-lo e estavam com ele quando deu o último suspiro.

Morreu tranquilo, em paz, sem falar nada, disse-me ela. Confirmei se tinha certeza de que minha mãe e a Laura estavam lá mesmo. " – Sim, e só saíram do quarto a pedido do médico, que logo depois confirmou a morte".

Saber que estavam com ele me deixou mais aliviado. Eu estava no meio do mediterrâneo, longe, muito longe de casa. E acabara de perder meu pai sem ter tido ao menos a oportunidade de olhar para ele, segurar sua mão pela última vez e dizer quanto o amava. Mas ele não esteve sozinho. Agradeci a Deus.

Tinham decidido que o enterro seria no dia seguinte. Comecei a pensar num jeito de voltar para casa. Descer no primeiro porto, pegar o primeiro avião e voltar, quem sabe desse tempo. A mente é fantástica, resolve tudo, mesmo o improvável. O provável é que nem houvesse um aeroporto na próxima cidade onde o navio ia atracar. O provável é que todos estivessem querendo enterrar meu pai o mais rapidamente possível para diminuir o sofrimento da minha mãe.

O rapaz que nos ajudou com a ligação balbuciou alguma coisa como "meus sentimentos" e eu e a Rose descemos para a cabine. Sentamos num sofazinho e começamos a rezar em voz alta e a chorar. Rezar e chorar, rezar e chorar...

Porquê ele tinha escolhido aquela aquele dia, aquela hora, justo quando a gente estava longe e sem poder voltar?

Eu só me perguntava porquê, porquê, porquê? Quando cansei de perguntar e de chorar, pedi à Rose que me deixasse ir até o convés. Lá fora, no alto do navio, o mais perto possível do céu, talvez ele me ouvisse e respondesse. Precisava ficar sozinho, precisava falar com ele, precisava entender. Ela concordou, respeitando a minha dor, mas naturalmente preocupada comigo. E eu com ela e com a filha que carregava na barriga. Atravessei todos os imensos e estreitos corredores do navio em passos lentos, cambaleantes, enquanto a música, o barulho dos copos, o riso e as gargalhadas dos turistas compunham uma trilha sonora que em outra situação não me pareceria tão macabra.

Finalmente subi a última meia dúzia de degraus da escada que dava para o convés, sentei em uma das muitas cadeiras azuis e brancas e fiquei olhando para as estrelas no céu e depois para o brilho da lua que formava um extenso tapete prateado sobre as águas calmas do oceano. Ventava um pouco. E perguntei de novo, agora a Deus, porquê ele foi levar meu pai justo quando eu estava longe e impossibilitado de fazer qualquer coisa por ele, ainda que fosse vê-lo uma última vez?

Não esperei resposta, comecei novamente a rezar, repetindo as orações em voz alta e torcendo para que não aparecesse alguém da tripulação me pedindo para descer porque eu não iria obedecer e também não tinha a menor disposição para explicar a quem quer que fosse o que estava fazendo ali à uma e meia da manhã, sozinho, enquanto todos estavam se divertindo no andar de baixo.

Muitas coisas me passaram pela cabeça: que a Rose talvez tivesse razão ao dizer, no quarto, que a vida estava querendo nos mostrar - a nós que vivemos querendo ter o domínio sobre tudo - que não temos domínio sobre nada; que o senhor Adérito, chegada a sua hora, resolveu partir sem nos dizer adeus para poupar a nora, evitar que ela passasse nervoso e prejudicasse seu neto; que a existência cobra uma morte para cada vida que se põe a caminho... e muitas outras coisas que não registrei.

Continuei a chorar e a orar até que uma grande ventania começou a arrastar as cadeiras de um lado para o outro, num balé lindo mas assustador, como linda e assustadora é a natureza, a vida e a morte.

O navio, que até aquele momento mais parecia um hotel cravado no chão, de tão tranquilo, também começou a balançar pra lá e pra cá. Fiquei com medo. Lembrei da Rose sozinha com a bebê dentro da barriga, as duas dentro do quarto, o quarto dentro do navio, o navio dentro do mar. Desci.

Na volta passei por uma sala de leitura, vazia como todas as outras, onde havia uma tv ligada exibindo apenas o logotipo da TVE e captando o sinal da rádio nacional de Espanha. Parei instintivamente na frente do televisor e pude ouvir trechos de um daqueles programas que, no silêncio da madrugada, tratam de ajudar as pessoas que estão sozinhas e sofrendo por alguma razão. O apresentador falava suavemente sobre uma técnica de relaxamento que, através de parapsicologia, podia nos colocar em contacto com seres queridos que tivessem morrido.

Explicou como fazer esse exercício na frente de um espelho...e eu ali ouvindo. Pensando no meu pai e ouvindo. Depois tocou uma música muito bonita e uma apresentadora atendeu um telefonema de uma ouvinte de Sevilha que havia perdido o marido fazia seis meses e queria ler uma mensagem que havia escrito para ele. A moça do programa consolou-a dizendo que duas pessoas que se amavam tanto não podiam estar tão longe assim e que onde estivesse ele estaria ouvindo e eles iriam se encontrar um dia.

Fui embora ouvindo o relato de outra mulher cuja voz um pouco anasalada foi se perdendo no ar atrás de mim...

Ao chegar ao quarto deitei-me ao lado da Rose e, cansado, adormeci. E sonhei. Como nunca havia sonhado em minha vida. Sonhei que fui até o velório e vi meu pai. Não deitado num caixão, frio e sem vida, mas sentado num banco que dava a volta na sala, ao lado das outras pessoas. Agachei-me na frente dele e segurei suas mãos, repetindo-lhe a pergunta ainda sem resposta: porquê resolveu ir embora daquele jeito, sem nos dar nenhuma chance?

Ele estava mais novo, vestia uma capa, calçava botas e, estranhamente, dava umas baforadas num charuto, vicio que nunca teve. Sua pele era branca e tinha um brilho especial, a ponto de tudo em volta dele parecer opaco e fora de foco. Não respondeu. Apenas sorria, com um sorriso largo que ele tinha quando estava muito alegre ou alguma coisa o divertia muito. Era como se tivesse acabado de me pregar uma peça. Mas eu sentia amor em seu olhar e alegria por me ver. Passou a mão suavemente pelo meu rosto. Em seguida levantou-se, com uma agilidade que eu aprendi a conhecer bem em outros tempos, e se esgueirou por um corredor, como se levitasse entre as pessoas. Fui atrás dele gritando "– pai, pai!" mas ele, literalmente, desapareceu.

Um pouco triste, mas em paz, dirigi-me a outra sala ao lado e me sentei.

Sabia que no centro daquela sala havia um caixão e que todos ali estavam velando um corpo, mas eu não o via. Chegaram uns amigos, começaram a falar comigo e a dizer aquelas coisas que se dizem aos que ficam e acordei. Como também nunca havia acordado antes. Era como se tivesse sido arrancado à força do sonho, uma dor física na altura do coração e um pouco suado.

Sentia-me mais cansado do que quando adormeci. Mas tinha uma certeza: eu acabava de me despedir dele, no único tempo e espaço onde o tempo e o espaço não contam. Me senti melhor, olhei para a Rose ao meu lado, lembrei dos sonhos que me contou ter com o pai dela depois que morreu, e voltei a dormir, na esperança de encontrar-me novamente com o meu. Claro que em vão.

O dia seguinte amanheceu ensolarado. Fomos acordados pelo alto-falante avisando que, após a liberação das autoridades portuárias, poderíamos descer à terra. Contei para a Rose o que havia sonhado e falamos um pouco sobre o que vi e senti na noite anterior. Ela lembrou também que um dia antes, segunda-feira (enquanto meu pai estava no hospital) estávamos em Capri, o primeiro lugar onde o navio parou. A ilha era linda, o dia estava lindo, vimos lugares lindos, mas a gente não estava bem. Ela disse várias vezes que não estava bem. Que estava triste por estar num lugar tão maravilhoso e não estar conseguindo aproveitar como gostaria. Eu pensei que era por causa do calor e da bebê.

Fomos com essas lembranças e esses pensamentos, em silêncio, para o café da manhã. Mais ou menos às oito desembarcamos e saímos a caminhar pela cidade, sozinhos, sem guia e sem excursão.

Estávamos em Palermo. A cidade pareceu-me feia, mas não falei nada. Andamos um pouco mais – todo porto é feio – quem sabe mais para o centro, longe dali. Carros e mais carros, centenas de vespas zunindo seus escapamentos, motoristas em carros amassados xingando uns aos outros (entendi melhor a influência italiana sobre São Paulo), filas duplas, motonetas em cima das calçadas, ruelas estreitas, escuras, prédios velhos, escuros, confusão e calor. Todos os carros estacionados, cobertos por uma densa camada de pó, pareciam ter sido abandonados há muito por seus donos. Andamos umas duas horas, eu fazendo as contas do fuso horário e esperando que amanhecesse no Brasil para telefonar, saber se tinham adiado o enterro, já que eu falei que tentaria voltar. A Rose cansada, passando mal com o calor e impressionada com a paisagem da cidade. Mas também não falou nada. Paramos para comprar água e eu tomei um expresso. Andamos mais um pouco procurando a central telefônica. Encontramos uma às onze e meia da manhã, sete e meia no Brasil. Liguei primeiro para o Sr. De La Via, amigo de tantas horas e meu orientador espiritual, já que eu não sabia o que fazer. Ele disse que já tinha falado com a minha família, que o enterro ia ser mesmo ao meio dia, que todos em Cafh já estavam fazendo as orações que sempre fazemos e se estendem por sete dias quando um membro ou alguém da família falece e que não adiantava eu voltar porque em relação ao fato em si eu não podia fazer mais nada e a única coisa que realmente eu podia fazer era orar e me recolher o mais possível neste dia de terça-feira 17 de junho dia do enterro do meu pai.

A seguir liguei para tentar pegar meu irmão em casa. Minha cunhada atendeu e disse que todos estavam no velório no Cemitério do Morumby e que o enterro ia ser ao meio dia. Repetiu que era besteira eu voltar não ia chegar a tempo e não havia nada que eu pudesse fazer. Liguei para a avó da Marina para falar com ela mas tinha acabado de sair. Ia fazer prova e depois para o enterro do avô. Ela falou que queria que eu estivesse lá.

A impotência doeu quase tanto como a perda. Me convenci que não havia nada mesmo que eu pudesse fazer. Saímos da telefônica e caminhamos mais uma meia hora até o navio. Na noite anterior, depois de descer do convés, tinha escrito uma mensagem. Passei logo cedinho por fax para minha secretária e para para um aparelho que mantinha em casa. Recomendei desesperadamente que entregassem o fax à minha filha Marina para que o lesse durante o velório ou no momento do enterro. Foi a única maneira que encontrei de estar presente e de juntar minha alma e minha dor à de todos os que estivessem acompanhando meu pai.

No quarto voltamos a chorar e fiquei o dia inteiro sem sair, ver ou falar com ninguém.

À noite fomos jantar. Pedi à Rose que não contasse nada ao casal de amigos italianos nem ao pessoal da mesa, pra evitar o mal estar. Eles perguntaram porquê a gente não voltou para a festa na noite dos anos 60 e a gente deu uma desculpa qualquer.

Hoje, quarta feira, 18 de junho, o navio parou cedinho na Tunísia e fomos com o grupo conhecer a cidade. Voltamos ao meio dia, almoçamos e enquanto espero para tentar ligar novamente para o Brasil – preciso falar com a Marina e pelo menos com a minha irmã ou meu irmão – me deu vontade de escrever, lembrar cada segundo e registrar tudo neste computador da Rose, para não esquecer nunca mais o que aconteceu na noite de ontem, uma noite sem fim.

Agora eu vou lá em cima tomar um Jack Daniels e fazer um brinde a ele, que continua vivo em mim, em nós.

Em algum lugar do oceano, entre a costa da Africa e da Espanha, 20:30 horas do dia 18 de junho de 1997.


Porquê a água do mar é salgada?

Hoje, 3 de maio, o Facebook me lembrou de algo que escrevi há dois anos atrás sobre a morte do meu pai. Achei melhor transcrever aqui no blog, pra eternizar essa lembrança em algum lugar além do meu cérebro.
Ontem à noite recostado na cama, depois de alguns exercícios e orações, coloquei meu fone de ouvido e adormeci ouvindo minha play list "keep calm". Devo ter ido tão longe e tão fundo que acordei às 4h30 como se tivesse dormido 12 horas. Sem sono, fiquei um pouco acordado e, não sei porquê, lembrei do meu pai. Se estivesse vivo, estaria com 106 anos (nasci temporão, ele já tinha 50). Sr. Adérito, a calma em pessoa. Só o conheci vivo. Recebi a notícia de sua morte pela voz de uma secretária, na cabine de comando de um navio, à 1h da manhã do dia 18 de junho de 1997, em algum lugar do mediterrâneo entre o norte da África e o sul da Itália. A notícia interrompeu uma noite de festa estilo anos 60 onde eu e a Rose, grávida da Olívia Costa, nossa primeira filha, fazíamos uma das coisas que nos dá um grande prazer: dançar. Não é preciso dizer que no dia seguinte, quando o navio atracou em Napoles, vaguei desesperadamente pela cidade, pendurado num fio de esperança de descobrir uma forma de voltar ao Brasil a tempo de me despedir dele. Em vão. O falecimento havia sido no dia anterior e o sepultamento marcado para o meio dia seguinte. Fiquei assim na cama por alguns momentos, depois levantei, continuei ouvindo minha música, fui até à cozinha, fiz um chocolate quentinho e me deu vontade de compartilhar com vocês, meus amigos que a esta hora dormem, a mensagem que enviei pelo fax do navio para que fosse lida pela Marina Costa no velório do avô:
"Meu pai, minha mãe, meus irmãos, Marina querida: Acho que a água do mar é salgada por causa das lágrimas derramadas por tantos portugueses afogados em saudades dos seus, e pela impotência contra a fatalidade, o inevitável. Estou aqui no meio da imensidão azul, chorando por ter perdido o convívio de um pai a quem amava e admirava em seu silêncio e aceitação serena da vida. E choro também por não poder estar aí com vocês. Ontem à uma da manhã, depois de receber a notícia, subi ao convés, o mais próximo do céu que pude, e perguntei a Deus, à lua, às estrelas, porquê me afastaram dele neste momento? E pareceu-me ouvir a voz do pai dizendo: "vai, vai-te embora, não te preocupes..." Depois uma grande ventania começou, arrastando para um lado e para o outro as cadeiras do convés, num balé ao mesmo tempo lindo e assustador. Mas a natureza é assim, linda e assustadora, como a vida e a morte. Quando voltei para o quarto, cansado, depois de chorar e orar...adormeci. E sonhei. Sonhei que estávamos sentados ao lado de vocês, ele com um sorriso lindo e um brilho especial no rosto. Perguntei-lhe mais uma vez porquê fez isso, por quê numa hora em que eu estava tão longe. E ele apenas sorria, sorria como se tivesse acabado de me pregar uma peça. Mas o seu sorriso era de amor. A seguir levantou-se, com uma vitalidade e uma rapidez que eu aprendi a conhecer tão bem em outros tempos, e desapareceu entre as pessoas presentes ao seu próprio velório, enquanto eu corria atrás dele gritando "pai! pai! pai!". Foi-se, como que levitando, enquanto olhava para trás e sorria para mim... Está amanhecendo e eu ainda não sei o que vou fazer. Não quero que prolonguem o sofrimento e a dor esperando por mim. Porque não tenho certeza se conseguirei chegar pra lhe dar um último beijo. Por isso, quero abraçar minha mãe, dizer-lhe que onde meu pai estiver, estará agradecendo sua dedicação e sua paciência. E, certamente, protegendo-a com o manto de seu espírito. Eu, a Rose e a neta que ele não esperou nascer, mas que já a está protegendo também desde agora, estamos tristes. Mas em paz. E juntamos nossos corações aos de vocês para que a Mãe Divina o receba em seus braços e o Pai Celeste guie sua alma para a eternidade. Amamos vocês. Cascão e Rose, 18 de junho de 1997."

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA!

A vida de quem tem o privilégio de se alimentar duas ou três vezes por dia, e ao mesmo tempo nutre a consciência sobre a importância de preservar a própria vida e a do planeta, não está fácil.
De um lado vem a OMS e amaldiçoa as carnes processadas (bacon, salsichas e embutidos) jogando-as na categoria dos alimentos que favorecem o desenvolvimento de vários tipos de câncer, para fazer companhia ao cigarro, às bebidas alcoólicas, ao amianto e à exposição ao sol “in natura”.
Por outro lado, agiganta-se em todo o mundo o tsunami vegetariano, com argumentos irrefutáveis – como os que afirmam que os cerca de 60 bilhões de animais abatidos todos os anos, além de revelarem uma falta de ética e de lógica impressionantes, já que escolhemos alguns animais para nos fazer companhia dando-lhes amor e conforto, e matamos outros para saciar nosso apetite e deleitar o paladar – seriam os grandes responsáveis por problemas que vão do aumento do efeito estufa às crises hídricas e até a fome.
Segundo os veganos metade da produção mundial de grãos é destinada à pecuária, chegando em alguns casos, como os da soja, milho e aveia, a 80%. Ou seja, em vez de estar sendo servida aos humanos essa comida estaria alimentado os bois e vacas, que vão virar comida depois. Afirmam também que os recursos usados para alimentar 2,5 bilhões de pessoas com produtos animais dariam alimentar 20 bilhões de vegetarianos. Já em relação aos recursos hídricos, enquanto a produção de 1 kg de trigo exige 132 litros de água e de 1 kg de arroz 2.500 litros, para a produção de 1 kg de carne seriam gastos em média 15.000 litros de água. Amaldiçoados estão também todos os subprodutos da carne, já que o leite e seus derivados só são possíveis dentro da lógica macabra dessa cadeia.
Ok, então vamos comer apenas frutas e legumes que são bons e não fazem mal para a saúde. Nem tanto, nem tanto.
A farra dos agrotóxicos no Brasil, usados para deixar mais coloridos e suculentos aqueles melões, tomates e rabanetes que nos fazem babar na feira e nos hortifrútis da vida, faz com que cada brasileiro consuma um galão de cinco litros de veneno a cada ano.
Segundo especialistas da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) "os dados sobre o consumo dessas substâncias no Brasil são alarmantes". Somos campeões mundiais na categoria desde 2008. E com estímulo governamental, já que mais da metade dos agrotóxicos permitidos pela legislação no Brasil hoje são banidos em países da União Europeia e nos Estados Unidos. O governo brasileiro não só permite os pesticidas proibidos em outros países, como ainda os exonera de impostos, concedendo redução de 60% do ICMS e isenção de PIS, COFINS e IPI à produção e comércio dos pesticidas, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT).
Bem, já que nesse terreno natureba a coisa também não está fácil, então o jeito é nos refugiarmos nas padarias e nas cantinas, consumindo pão e macarrão em profusão, sem correr riscos de nenhuma espécie, certo?
Ah, tolinho, vai nessa. O crescente número de celíacos e o mal que o glúten parece estar causando até mesmo em quem não é alérgico a essa substância, recomendam cautela. Fora os riscos que a obesidade, amiga das dietas baseadas em carboidratos, traz para suas vítimas, tais como diabetes, problemas cardíacos, de pressão alta e outras doenças crônicas decorrentes. Quem se der ao trabalho de ler o livro Barriga de Trigo do médico americano Wiliam Davis, nunca mais entra numa padaria, cantina ou pizzaria. Entre outras coisas ele afirma, fundamentado em décadas de estudos clínicos, extensa bibliografia e na sua experiência direta com os pacientes, que parar de comer trigo – mesmo o integral, considerado mais saudável – além de ajudar a perder peso e reduzir gordura localizada, ajuda a prevenir e eliminar vários problemas de saúde como artrite e dor nas juntas, asma, inchaços, enxaquecas, refluxos ácidos, alguns tipos de urticárias, câncer e até problemas de pele, como a acne.
Segundo o Dr. Davis, para aumentar a produtividade e a resistência das espigas à seca e às pragas, após a segunda guerra a ciência tratou de realizar uma série de cruzamentos e modificações genéticas nas linhagens do trigo, com resultados desastrosos para a saúde humana.
Ou seja, estamos no mato com o cachorro, o gato, o papagaio e toda a flora e fauna que ameaça a nossa sobrevivência.
Mas é claro que este tiroteio nutricional só preocupa, como eu disse no início, aos 6 bilhões de pessoas que fazem pelo menos uma refeição por dia. Quanto aos outros 1 bilhão que passam fome...bem, que tal a gente mudar de post?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

As duas melhores reflexões que li sobre o Facebook.

http://www.baciadasalmas.com/uma-internet-com-fronteiras-como-e-nao-estar-no-facebook Sobre o Facebook 1

https://www.facebook.com/jarbas.agnelli/posts/10154314125716124 Sobre o Facebook 2

Obrigado Paulo Brabo e Jarbas Agnelli por compartilharem com seus amigos e/ou leitores sua capacidade de observação e análise. Tomei a liberdade de reproduzir os links aqui (que são o próprio crédito) sem qualquer comentário – que não cabe – também para ter acesso a esses textos sempre que precisar deles.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

CÉREBRO NÃO TEM TEMPLATE.

"Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele." Henry Ford

A quantidade de informação disponível na internet, somada à profusão de sites que oferecem praticamente de tudo, e a preço de banana, tem levado alguns empresários e executivos a achar que é bobagem pagar uma consultoria ou agência para cuidar do marketing e da comunicação de seus negócios.

Aparentemente, tudo que precisam está na rede. E grátis! É só baixar e usar. Quando muito, pagar uma pequena taxa pelo download e pronto. Tem template de logo, template de cartão de visita, template de site, template de blog, template de plano de comunicação, template de power point e até template de business plan. Só precisa preencher os espaços em branco. E se não há tempo nem pra isso, basta pedir a um sobrinho ou ao filho de um amigo que “mexe com essas coisas” e o assunto está resolvido. Só que não.

O pensamento precede a linguagem. E a ação.

De que adianta ter os templates e os espaços em branco se você não sabe o quê colocar neles? E nesse sentido os computadores não vão ajudar muito. Porque computadores ainda não pensam por nós.

Isso significa que templates não servem para nada? Claro que não. Uma boa parte dos modelos disponíveis são bem pensados, às vezes têm um bom design e podem ajudar você a apagar um incêndio, a cumprir um prazo apertado ou a produzir um material bonitinho para aquele evento sem precisar fazer muito investimento. Eu mesmo recorro a eles algumas vezes.

Mas, entre um template que serve para tudo e para todos, e uma solução sob medida pensada para o seu negócio, há uma distância enorme. Afinal, o histórico da sua empresa é único. O ciclo de vida do seu produto é único. O momento que o segmento de mercado onde você atua é único, e a identidade que sua empresa precisa criar nem se fala. A solução para o seu problema, portanto, também deve ser única.

Às vezes um olhar de fora muda tudo.

Outro aspecto a ser considerado na decisão pela contratação de um prestador de serviço, é o fato de que quem está muito envolvido no problema raramente conta com a perspectiva necessária para enxergar a melhor solução.

Vou contar uma historinha rápida. Certa vez tive um cliente que importou uma linha de interruptores e tomadas elétricas da matriz, na Itália, para venda no Brasil. Produto classe AA, de altíssimo valor agregado, com muita tecnologia, design avançado, tinta automotiva e cores exclusivas. O preço, premium, óbvio. Porque não se tratava de um simples interruptor ou tomada. Era um item de tecnologia doméstica e elemento de decoração do ambiente. Enfim. Já havia sido feita uma campanha, produzidos materiais gráficos de excelente nível e nada da linha decolar. O PDV também não conseguia entender nem explicar a razão do fracasso de um produto tão sensacional. Às vezes o consumidor, o decorador ou o arquiteto responsável pela obra compravam uma ou duas peças, mas não ampliavam nem repetiam a compra.

Durante uma reunião em que se buscava desesperadamente uma explicação para o fenômeno, pedi pra ir ao banheiro. No caminho, passando por salas e corredores percebi que todos os interruptores e tomadas da linha instalados ali estavam com o nome e a marca do fabricante (impressos num dos lados chanfradinho do produto) na vertical, dificultando a leitura. Alguns até invertidos, de cabeça pra baixo. De volta à reunião perguntei porquê. Ao responder minha pergunta, o cliente deu a resposta para o problema: “porque as caixas elétricas no Brasil são instaladas todas na vertical, e na Itália na horizontal. Mas o produto pode ser instalado em qualquer posição, porque encaixa e funciona do mesmo jeito.” Continuei: “Mas isso já foi dito ou mostrado na comunicação em algum momento?” Silêncio na sala. “Não, acho que não…” respondeu o diretor de marketing. Ah, ok. Então que tal a gente fazer isso? Seguramente as pessoas estão comprando o produto e ao chegar em casa e ver que a posição "normal" da peça – horizontal, não serve para a caixa que ele tem na parede - vertical. 

A campanha e os materiais gráficos produzidos a seguir mostravam os produtos na posição horizontal, mas também na vertical, deixando claro que apesar de nossas caixas elétricas serem diferentes das da Itália, o produto funcionava e podia ser usado em qualquer posição, sem problema. O catálogo seguinte mostrava isso e ainda trazia alguns produtos em tamanho natural, com picote, para serem destacados e colocados em cima dos interruptores atuais, permitindo ao consumidor sentir o efeito na decoração.

Evidente que não houve por parte do cliente a devida atenção quando resolveu simplesmente importar os produtos prontos, sem nenhuma adequação prévia para o nosso mercado. Acho que o produto parou de ser importado ou foi finalmente adaptado e relançado. Mas com um pensamento fora da caixa (literalmente neste caso) e uma mudança na comunicação as vendas reagiram e sairam do vermelho.

Neste e em muitos outros casos que, tenho certeza, cada um dos leitores poderia relatar neste espaço, não há template que resolva o problema. O que resolve é a observação acurada, o pensamento estratégico e uma solução sob medida. E para isso não há template.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Um caso de amor com o Brooklin

Escrevi este texto para a série "Conte sua história de São Paulo", uma coletânea de crônicas levadas ao ar pela rádio CBN São Paulo, num programa comandado por Milton Jung. Resgatei algumas memórias e a repercussão, principalmente junto a amigos da época e antigos moradores, me surpreendeu e emocionou. Além a versão em texto, há um audio [audio http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/platb/files/615/2009/10/mjung_contesuahistoriia_sp_anos-70_031009.wma] - editado - que foi ao ar dia 05/10/09, uma segunda feira. Espero que vcs curtam.
"Faz um mês que estou trabalhando no sétimo andar de um prédio na Rua Arandú, no Brooklin, paralela à Berrini. Daqui até aonde a vista alcança (o que dependendo da direção que eu olhe, não dá mais do que um quarteirão) posso ver uma parte do bairro ainda não tomada pelos prédios. Fosse este onde estou, o único, e estivéssemos nós em 68, quando vim morar no Brooklin, minha vista alcançaria alguns quilômetros em todas as direções, já que não havia um único edifício no quadrilátero compreendido entre a Marginal de Pinheiros, a avenida Santo Amaro, a avenida Vicente Rao e avenida dos Bandeirantes, território onde vivo desde os 11 aos atuais 52.
Antes do Brooklin, meu universo era bem mais reduzido: Chacim, uma pequena aldeia ao norte do Portugal, cuja população total não era muito maior do que o número de pessoas que hoje trabalha num edifício qualquer da região. Saí dessa aldeia com meus pais em 1968, para nos juntarmos aos meus irmãos que cá estavam. Depois de 14 dias a bordo do navio Theodor Erzl de bandeira israelense, que saiu de Lisboa às 7 horas de uma manhã fria e nevoenta de dezembro, e viajando numa classe que não me recordo ter alguma das letras do alfabeto, desembarcamos finalmente no Porto de Santos.
Confesso que aquele Brasil de 68, e tudo que estava acontecendo nele, eu só conheci mais tarde, já no colegial. E depois, mais profundamente, durante os tempos de repressão na faculdade de comunicação em meados dos anos 70. Mas ali, garoto, imigrante recém-desembarcado, com a terra prometida em baixo dos meus pés, o que eu via com os olhos esbugalhados, o queixo caído e a boca aberta era a esperança, o futuro promissor, o maravilhoso mundo novo chamado Brasil!
Subimos a serra na kombi de um de meus irmãos – que eu não conhecia, porque quando ele veio para o Brasil eu ainda nem tinha nascido – e fomos direto para uma pequena casa alugada para receber e re-unir a família. Ficava na Rua 6, atual Rua Taperoá, na Cidade Monções – que para quem não sabe, é o verdadeiro nome deste…digamos “baixo Brooklin”, reduto de portugueses que investiram suas economias em lotes na região e depois, no boom imobiliário, os venderam para a Bratke & Collet, empresa que está para a região da Berrini como a Gomes de Almeida Fernandes esteve um dia para a região da Paulista.
Exatamente em cima do que foi um dia nossa pequena casa está hoje um dos robocops que enfeitam – ou enfeiam, na opinião de alguns – esta região. Uma das lembranças mais marcantes desse período pré-adolescente foi a chegada ao bairro, mais exatamente à pracinha que ficava em frente à minha casa, do Circo Sbano. A família Sbano – eu soube recentemente quando minhas filhas começaram a tomar aulas de circo, foi por muitos anos um dos baluartes da arte circense no Brasil – era composta por pai, mãe, duas filhas lindas, bailarinas e trapezistas, dois rapazes e mais uma meia dúzia de agregados, entre engulidores de fogo, malabaristas e palhaços. Além dos elefantes, tigres, macaquinhos e cachorros amestrados. O Sbano chegou, armou a lona, abriu a bilheteria e anunciou sua estréia retumbante para uma curta temporada de três meses. Ficou dois anos! Tempo suficiente para eu me tornar amigo íntimo da família e aprender com o Rico, como era chamado o caçula dos Sbano, a atirar facas, dar cambalhotas no ar, subir no trapézio e a cortar folha de papel e apagar ponta de cigarro com o chicote.
A coisa foi ficando tão séria, que o circo quase traçou meu destino: a uma certa altura, apaixonado por uma sobrinha dos Sbano, jurei que iria embora com a trupe. O problema é que eles pareciam não ter pressa alguma em sair dali. Em volta dos traillers começou a crescer mato, os pneus foram afundando no terreno e a impressão que eu tinha é que nunca mais iriam embora. Foi ali, no Circo Sbano que vi pela primeira vez a apresentação de um grupo de trapalhões bem humorados, que estava começando a vida artística. Seus nomes: Didi, Dedé e Mussum (acho que o Zacarias veio depois). Um dia, no final da apresentação, o Simca Chambord deles não quis pegar e o jeito foi eu e uns amigos ajudarmos a empurrar, embaixo de chuva.
Dos 11 aos 23 anos o Brooklin foi meu quintal, minha praia, o lugar dos meus primeiros amigos, meus primeiros amores escondidos, palco do meu primeiro beijo, das primeiras descobertas, do meu primeiro emprego e até do meu primeiro casamento, do qual nasceu Marina, minha primeira filha. Um lugar onde a maioria das ruas era de terra batida. A Marginal de Pinheiros não existia, a Bandeirantes não existia, a Berrini não existia, e muito menos a água espraiada ou a Vicente Rao. No lugar de todas elas, córregos: da Traição, Espraiado, Cordeiro, Uberabinha.
Lembro-me das pequenas pontes sobre a Berrini, por exemplo, que em dias de enchente submergiam e desapareciam, não permitindo que atravessássemos para o outro lado. Pequenas pontes como essas, ou melhor pinguelas, também ligavam o Brooklin à Vila Olimpia, que começava do lado de lá da Avenida dos Bandeirantes. Lembro-me dos banhos nas lagoas da região, sobretudo numa, maior, que ficava exatamente onde é hoje o Shopping Morumbi. Como nossas mães sempre davam bronca quando a gente insistia em tomar banho na lagoa, muitas vezes a gente nadava de cueca mesmo, como se isso ajudasse em alguma coisa, já que ao chegar em casa as cuecas brancas estavam marrom.
Comecei a trabalhar cedo. Não, não é força de expressão. Cedo mesmo, em todos os sentidos. Com 12 anos eu levantava às 4 da manhã, vestia a roupa que tinha deixado embaixo dos cobertores na noite anterior para ficar quentinha, e ia para o meu primeiro emprego: entregador de pão. Depois de carregar o furgãozinho Opel do dono da freguesia numa das padarias da região – não sem antes tomar um café com leite com um pãozinho tão quente, mas tão quente que a casquinha estalava e a manteiga deslizava sobre ele sem precisar usar faca para espalhar – lá íamos nós com aquele furgão velho pelas ruas do Brooklin Novo. E do Campo Belo também, entregando quatro pãezinhos aqui, seis pãezinhos ali, três pãezinhos e dois litros de leite acolá, uma bengala… em algumas casas, de família grande, três bengalas e dois litros de leite!
O patrão na direção e eu atrás, embrulhando os pães. Quando se aproximava a casa da freguesa ele diminuia a velocidade, eu saltava do furgão em movimento, pulava o portão, deixava o pão na soleira da porta, voltava a pular o portão, corria mais um pouco e pimba! Pra dentro do furgãozinho que seguia em frente sem parar. E assim ia a madrugada toda. Por volta das sete horas eu já estava em casa. Tomava café de novo e dormia até às onze, onze e meia. Acordava, tomava banho, almoçava e rua: brincar, empinar pipa, jogar futebol, bolinha de gude… porque às quatro da tarde ia pra escola. Ou melhor, pro Maloquinha, que era o apelido da Escola Estadual Diva Maria B. Toledo, na esquina da Padre Antonio José dos Santos com a Guaraiuva.
O período em que eu estudava era chamado “noturninho” e ia das 16 às 19h30, quando começava então o noturno. Confesso que nunca soube de outra escola em São Paulo que tivesse um horário como esse! Só mesmo o Maloquinha… Depois o colégio ganhou um nome mais pomposo: “Colégio Estadual Mademoiselle Perrilier”. Até hoje não sei quem foi essa senhora. O que eu sei, é que a despeito de todos os esforços, o colégio continuava conhecido mesmo era por “maloquinha”. Ahhh…mas o maloquinha ainda viria a ter seus dias de glória: hoje, no mesmo prédio, reformado, funciona a Universidade Livre de Música Tom Jobim, a uma quadra do Clube Açaí, outro patrimônio do bairro.
O Padre Antonio José dos Santos que dá nome à principal rua do bairro – até hoje chamada por muitos de Avenida Central – para quem não sabe foi o primeiro pároco da Igreja São João de Brito, ali pertinho na Rua Nebraska, onde acontece há pelo menos uns 30 anos uma das mais animadas festas juninas do bairro, onde se come também o melhor bolinho de bacalhau de São Paulo. E quem já experimentou não me deixa mentir. Bem, a gente estudava no maloquinha mas gostava mesmo era de namorar as meninas do Beatíssima e do Oswaldo Aranha e do Enio Voss, também colégios públicos, mas com uma reputação que o nosso querido maloquinha definitivamente não tinha.
Adolescência, anos 70, Jovem Guarda, Mutantes, Jackson Five, calça boca de sino, camisa cacharrel mandada fazer, matinés no Açai, no Pinheiros, no Círculo Militar, e muitos, mas muitos bailes na garagem dos sobradinhos onde moravam as garotas, nas ruas Pensilvânia, Arandu, Michigan, Flórida, Hollywood, Arizona…e do outro lado da Central também: na Indiana, Guararapes, Quintana, Texas, Kansas e Brejo Alegre.
Um belo dia, já com 14 anos e de carteira assinada, como office boy do Livro Vermelho, publicação da Editora Páginas Amarelas, cujo escritório ficava na Avenida Santo Amaro entre a Guararapes e a Indiana, comprei meu primeiro paletó, cor mostarda, em dez prestações. Adivinha aonde? Nas lojas Pitter, claro! atrás do Teatro Municipal.
Não me esqueço da estréia do paletó mostarda: subia a Guararapes para um bailinho na casa de uma amiga, com o dito cujo sobre uma cacharrel vinho e uma calça branca impecável. Havia chovido naquela tarde quente, ruas enlameadas, eu no maior cuidado desviando de todas as poças d’água quando de repente, não sei se de propósito, um DKV passa num charco e me deixa parecendo um pinto molhado… molhado e marrom: paletó marron, camisa marrom, calça marrom.
Para a nossa turma, que organizava e promovia os bailinhos nas garagens cobertas com lona, a glória foi quando a Construtora Guarantã fez o primeiro conjunto de edifícios residenciais do bairro, na atual Praça Sansão Alves dos Santos. Morar ali era “chic” e, claro, todos queríamos ter um amigo nos prédios da Guarantã, porque aí dava pra fazer os bailinhos no salão de festas do prédio. Era o máximo: luz negra, globo estroboscópico, os bolachões na vitrola Garrard, todo mundo dançando agarradinho!
Aos poucos outros prédios foram surgindo, os córregos canalizados, as ruas asfaltadas, a especulação imobiliária tomando conta, e os amigos casando, mudando, cada um tomando o rumo de sua vida, como tem de ser. Eu, que sempre fui um apaixonado pelo Brooklin, o máximo que consegui me afastar foi até à Chácara Santo Antonio, quando casei, e depois Campo Belo e Itaim, retornando definitivamente para uma das esquinas do bairro, onde moro até hoje. E agora onde trabalho também, no sétimo andar de um prédio na Rua Arandú. Daqui até onde a vista alcança…"

domingo, 1 de junho de 2014

OS LOBOS E AS UVAS.

Adoro lobos. Elegantes, imponentes, misteriosos. Fizeram parte da minha infância e povoaram minha imaginação de criança. Tínhamos uma pequena vinha em Chacim, aldeia onde nasci ao norte de Portugal, onde cultivávamos uvas para fazer o vinho que abastecia a adega de uma taberna que minha família mantinha nos baixos da nossa casa assobradada. Um pouco antes da vindima (colheita das uvas para se fazer o vinho) os lobos – que pra quem não sabe adoram uvas, como as raposas – invadiam a vinha e acabavam com a produção.

Para evitar o estrago, tão logo as uvas começavam a amadurecer, armávamos uma barraca no meio da vinha e passávamos noites e noites lá, devidamente equipados com algumas espingardas. Quando ouvíamos um lobo se aproximando, disparávamos dois ou três tiros para o ar, o suficiente para espantá-los por algumas horas. Nos revezávamos eu, meu irmão e meu pai. Sempre em dupla. Enquanto um dormia, o outro ficava de tocaia. Geralmente, depois dos tiros, a gente trocava de posição, até à próxima investida dos lobos. De manhãzinha retornávamos para casa. Não sem antes colher um cacho pra ir comendo pelo caminho. Tive uma infância maravilhosa, quase inacreditável...