quarta-feira, 15 de agosto de 2018

TROCANDO O WAZE PELO MOOVIT



Tempos atrás pensei em fazer uma experiência: em vez de mudar de carro, mudar de atitude e tentar viver sem ele. Somei todos prós e contras, as multas, as despesas com documentação e uma revisão completa, incluindo alguns itens estéticos para o comprador não ficar pondo defeito na hora de negociar o preço. Quando vi o tamanho da conta, se eu ainda tinha alguma dúvida em me livrar do carro, ela terminou aí. Felizmente o que recebi deu para pagar tudo e ainda sobrou um troco, não mais do que o suficiente para um jantar a dois. De comemoração.

Quando eu fiz dezoito anos – e com todos os amigos da aminha idade não foi diferente – o grande sonho de consumo era comprar um carro. Ou ganhar um, para os filhos de pais mais abastados, o que não era meu caso. Hoje o carro ocupa o 7º ou 8º lugar na lista de desejos de uma boa parte dos jovens. Muitos sequer tiram a carta de motorista, para desespero das montadoras.

Ao trocar de atitude troquei a preocupação com as multas, o ipva, o seguro, as revisões, o preço da gasolina, o estresse de achar uma vaga para estacionar e a revolta com o preço extorsivo dos estacionamentos, por um bilhete único. E pela tranquilidade de conferir e-mails, responder o wattsapp e usar o google sem o risco de causar um acidente. Confesso que atualmente ao ver um congestionamento, chego a sentir um certo calafrio e uma angústia misturada com compaixão pelo sofrimento alheio.

Claro que andar de ônibus e metrô numa cidade que está longe de ter um sistema de transporte púbico 100% eficiente, e muito menos suficiente, também tem seus perrengues: alguns motoristas dirigindo de maneira irresponsável, cobradores mal humorados e cuja função cada dia se justifica menos, passageiros que ainda não atingiram um nível mínimo de civilidade e por aí vai. Por outro lado, uma sensação incrível e coisa impensável no passado, é saber a hora exata em que o próximo ônibus vai passar, enquanto você come a última torrada com geleia no café. Isso graças a uma das sete maravilhas da tecnologia, chamada Moovit (o Waze de quem anda a pé, de ônibus ou bicicleta). Que ainda te avisa, online, quantos pontos você tem pela frente, quanto tempo vai gastar no trajeto, a hora exata de descer e por quantos minutos terá de caminhar até seu destino final. Sem falar que durante três horas você pega quantos coletivos precisar pagando apenas o valor (alto, diga-se) de uma passagem. Meu recorde até agora foram um metrô e três ônibus em menos de duas horas, numa viagem até o bairro dos Pimentas em Guarulhos. O terceiro ônibus eu peguei em plena via Dutra...aventura e tanto.

Claro que vendo a minha condição de um “sem carro” toda hora os amigos perguntam: mas você nunca mais precisou de um carro depois que se desfez do seu? Claro que precisei. E felizmente tem um monte deles à minha disposição sempre que necessário: os das locadoras (frequentemente mais baratos do que as passagens de ônibus interestaduais, principalmente quando se viaja em família), os da Uber, 99 ou Cabify e até os dos amigos quando gentilmente me oferecem uma carona. Preciso confessar também que em trajetos mais curtos e tranquilos, em dias sem chuva, também conto com minha fiel companheira, uma Suzuki Burgman.

Sei que ficar sem carro não é viável para algumas pessoas, por diferentes razões. Mas, para uma grande parte de nós, garanto que existe vida depois do automóvel. E que pode ser, além de tudo, uma experiência libertadora.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Eu adoro essa garota!

Em 2017 por esta época, minha mulher achou que ainda era uma menina (e eu acho que sempre vai ser mesmo, é uma de suas virtudes) e resolveu fazer um intercâmbio na Inglaterra, mais exatamente em Oxford, durante uma temporada em que aproveitaria para dar uma garibada no inglês. Bem...sempre nos apoiamos mutuamente, por mais louca que seja a vibe. E desta vez não foi diferente, quem era eu para segurar um dos seus sonhos acalentado durante décadas. Foi enriquecedor pra pra ela e pra nós que ficamos, eu e minha filha caçula. Um dos seus relatos enquanto estava lá, segue abaixo. Emocionei quando li na época, e me emociono sempre que releio. É por essas e outras que eu amo essa garota!



30 dias. Estou com saudades de casa.
A vida em outro país nao é nada fácil. Nao só pelo idioma mas porque o silencio faz eco na gente. Por mais desejada que tenha sido esta viagem, ela estava congelada na minha memoria desde quando eu tinha 15 anos. Agora, aos 49, tudo é diferente.
Tem sido um aprendizado, tem sido um desafio, tem sido apavorante, tem sido enriquecedor e surpreendente. 'E duro contar o dinheiro todos os dias e nao poder fazer as coisas com mais tranquilidade. E duro saber-se a mais velha de todas as classes aonde se entra. Tem sido duro ter poucas palavras para expressar tudo o que eu realmente quero dizer numa conversa.
Tem sido dificil esquecer o que eu acumulei de conhecimento pra me descobrir vazia e abrir espaço pra aprender tudo de novo.
Eu estou adorando a experiencia, mas tem horas que dá um desanimo, parece que nao há progresso nas aulas, parece que nao estou me dedicando, parece que a estrada é mais longa do que imaginava, parece que nao ha acostamento pro descanso, mas acho que isso também faz parte do processo de aprendizado.
Já chorei, já segurei o choro, já quis voltar e desistir, ja quis estender a estadia e mudar de pais, ja quis e nao quis muitas coisas ao mesmo tempo. Daí durmo, acordo, medito, faço minhas oraçoes e saio pra enfrentar a vida, o dia, a aula e a mim mesma novamente.
Acho que estou feliz, mas de um jeito meio nostálgico. Como se estivesse resgatando aos poucos aquela moça que eu fui e que achava que conquistaria o mundo. As circunstancias nao me deixam esquecer dos meus sonhos de menina, me levando sempre ao passado quando ligo a TV, por exemplo, e está passando Terra de Gigantes, os Waltons e hoje, Cimarron!!!
Bem, estou aqui num país de reis e rainhas, seguindo a cada dia como um Arthur, tentando liberar minha espada da pedra e contando que meus Cavaleiros da Távola Redonda no Brasil estejam me esperando com o mesmo amor de sempre. Porque o amor é o principio e o fim de todo caminho.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A fruta não cai longe do pé.

Agora é a vez dela...Depois de embarcar 3 filhas para o mundo, chegou a hora dela ir atrás de um sonho antigo e necessário. Depois de metade da vida e de uma carreira consolidada, diversos prêmios e conquistas profissionais e uma vida pessoal igualmente exemplar, ela escolheu fazer intercâmbio. Escolheu para aprimorar o inglês. Não que este fosse ruim, mas ela sabe que estava longe do limite e que hoje em dia qualquer situação exige. Escolheu porque tem vontade de aprender e porque sabe que pode crescer ainda mais. E sua escolha se consolidou porque ela tem na família pessoas que a amam e que a apoiaram em todas as etapas desse processo. Por um marido fiel e compreensivo e por filhas que, justamente por já terem vivido esse momento, sabem o quão importante ele é.
Ela, que começou a trabalhar aos 15 anos, que vem consolidando sua carreira desde cedo e de um jeito extremamente eficaz. Ela, que dorme 4 horas por dia, às vezes não come direito, que passa alguns perrengues mas sempre entrega resultado. 
Ela, que já viajou o mundo, não importa se por lazer ou para trabalhar. Ela, que mistura espanhol, inglês, português, alemão, francês e italiano, criando uma língua nova que só ela e os companheiros de viagem entendem, mas que tem um sotaque incrivelmente gostoso.

Ela, que tem o melhor carinho, as melhores mãos, que escreve maravilhosamente bem e que nunca deixou faltar nada pra ninguém.

Ela, que faz combinações peculiares, que gosta de salto grosso e adora animações infantis. Ela que gosta de assistir futebol no bar às quartas-feiras, mas não dispensa um bom vinho num bistrô.

Ela, que organiza eventos, ama festas e multidões, mas sente um prazer enorme em estar consigo mesmo, lendo seu livro na beira da piscina.

Ela, que já foi filha e é dona de casa, esposa, mãe, jornalista, escritora, viajante e mais tantas outras coisas, hoje é intercambista. E das boas. Daquela que estuda, se dedica, vai até onde achamos que não dá. Daquelas que escolheu família com crianças para treinar ainda mais a conversação e que sabe que alguns meses serão pouca coisa perto do objetivo maior dessa aventura.

Pra ela, eu digo hoje tudo o que ouvimos quando foi a nossa vez: Nem sempre as coisas são como queremos. Às vezes o chuveiro não esquenta, a comida não é a nossa preferida e as pessoas não são tão calorosas como estamos acostumados. Às vezes o salto quebra a caminho de uma reunião importante e o cachorro rasga nossa meia calça minutos antes de sairmos de casa. Às vezes chove e estamos sem guarda chuva, o trânsito nos faz cancelar compromissos e nós não podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Por isso, viva o hoje. Viva em inglês, viva nas aulas, em casa, viva em cada monumento que passar, cada paisagem famosa ou viva dentro de um simples e encantador ônibusinho vermelho. Viva suas conquistas, por menores que elas sejam. Viva!

Ela, que sempre fez de tudo por nós, hoje faz por ela.
E que esse seja só o primeiro passo.
EU TE AMO!


(Texto escrito por minha filha Sofia Almeida Cascão Costa, em junho de 2017, quando a mãe embarcou para mais uma de suas sadias loucuras. Porque aqui em casa todo mundo gosta de dizer o que sente, escrevendo!) 
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segunda-feira, 13 de março de 2017

É o fim!

Sou fá de rádio. Como cidadão e como profissional de publicidade. Comecei a trabalhar com 14 anos e desde então meu café da manhã sempre teve como trilha sonora as vinhetas musicais das emissoras. Uma das mais famosas é a Sinfonia Paulistana, de Billy Blanco, tema de São Paulo e do Jornal da Manhã da Jovem Pan que, aliás, ouço até hoje, intercalado com os noticiosos das rádios Estadão, CBN, BandNews e Cultura.

Quando viajo de carro uma das minhas curtições é ficar passeando pelo dial e sintonizando emissoras locais, que sempre são uma deliciosa surpresa, seja pela programação, pelos curiosos apresentadores, locutores e anunciantes, e até pela participação ao vivo dos ouvintes, com seus gostos e problemáticas regionais.
Mas, na área musical minha preferida sempre foi a Eldorado FM de São Paulo. Um exemplo de luta na defesa da boa música nacional e internacional, dos compositores, músicos e instrumentistas, dos esportes (não só o futebol, que tem defensores de sobra) e sempre à frente das grandes causas, como por exemplo as campanhas pela preservação da Mata Atlântica e da limpeza do Rio Tietê, de quem foi parceira histórica.
Minha paixão pela Eldorado era tão grande que quando fui sócio e diretor de criação da agência Merit Comunicações, e atendendo voluntariamente a Fundação S.O.S. Mata Atlântica, dei um jeito de me aproximar dos Mesquita e passei a atender também voluntariamente a Eldorado FM, para quem criei o conceito “ ELDORADO FM – A RÁDIO QUE TOCA”.
Hoje, além dos noticiosos que continuo ouvindo tanto no rádio do banheiro como nos aplicativos do celular, um dos meus redutos para curtir boa música brasileira é a Nova Brasil FM (que Deus a livre e guarde).
Assim, é com extremo pesar que leio a notícia da “morte” da rádio Estadão, cuja frequência foi vendida ou arrendada (dá no mesmo) para um grupo empresarial religioso. Recentemente a Rádio MPB FM, fundada pelo grupo O DIA e administrada pelo grupo Bandeirantes desde 2012, também saiu do ar graças a uma irreversível crise financeira.
As dificuldades de caixa têm sido a explicação para todas essas derrocadas. Mas, é bom lembrar que os problemas financeiros são só a consequência do problema. A causa real é a crise de valores nas áreas da educação e da cultura, que vão transformando o showbiz numa grande feira evangélico-sertaneja.
É um fim trágico para quem tanto fez pela cultura do país. Torço para que as poucas opções que restam para quem gosta de ouvir música, notícias e variedades no rádio, não sucumbam à riqueza dos missionários e à pobreza de espírito do mercado.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Uma noite sem fim.

Estávamos em nossa cabine depois de termos jantado e dançado um pouco com um casal de italianos que conhecemos durante a ceia da primeira noite. Fomos deixar umas coisas no quarto e voltar para encontrar com eles na festa "anos 60" que estava começando no terraço em volta da piscina. Não gostei nada de ver aquele envelope deslizando no chão, passado por debaixo da porta. "To Mr. José M. C. Costa, cabine L30".

Senti que não era boa coisa. Não tinha deixado nenhum assunto pendente no Brasil e já tinha falado com a minha filha Marina pelo telefone antes de embarcarmos em Gênova. Depois de um suspiro e já com um nó na garganta que comprimia o ar que respirava, abri: era um fax da Merit assinado pela secretária pedindo para ligar para minha irmã Laura ou para a Celeste minha cunhada. URGENTE!!!!! Aquelas maiúsculas, com tantas exclamações na sequência, soaram como um grito emitido horas antes a muitas milhas de distância e que, depois de atravessar o atlântico, agora ecoava na cabine L30. Um eco silencioso que entrou não pelos meus ouvidos, mas pelos olhos, desencadeando em meu cérebro uma corrente de pensamentos desordenados.

A primeira pessoa em que pensei foi na Marina que tinha ficado em casa com a dona Chica. Mas...não, tinha falado com ela um dia antes, prometeu dormir na avó todos os dias até terminar as provas e embarcar para o intercâmbio.

Aquele fax ficou gritando na minha mão. Enquanto segurava a mensagem e pensava no que fazer, conclui que não podia ser nada relacionado com a Marina. Não num fax enviado por uma secretária, pedindo para eu ligar urgente para a minha irmã ou minha cunhada. Era muita volta.

Ficamos em silêncio, eu e a Rose, olhando um para o outro, mudos (mais tarde ela me confessou que naqueles segundos ficou com medo de que tivesse acontecido alguma coisa com a mãe dela ou com o irmão e não quiseram preocupá-la por causa do bebê – estava de dez semanas – por isso mandaram o fax no meu nome...mas também isso parecia improvável).

Pensei imediatamente no meu pai. A gente ainda não esquecera as duas semanas que ele havia ficado internado meses antes, a maior parte do tempo na UTI. Com as mãos já meio úmidas dobrei o papel e comecei a pensar no pior. Porque, claro, só tentariam falar conosco no meio do oceano se acontecesse o pior. Fomos até ao balcão de informações e nos disseram que a sala de rádio, única forma de comunicação no navio, fechava às oito da noite. Expliquei que era uma emergência com o meu pai (agora que estou colocando no papel a memória daqueles intermináveis minutos, lembrei que disse à moça da recepção, instintivamente, que se tratava de uma "emergência com o meu pai..

Ela nos indicou as escadas e pediu para subirmos um lance, onde ficava a sala de rádio, que uma pessoa iria até lá para nos ajudar. Repeti para um rapaz de branco, muito educado e sabedor da urgência do assunto, que eu precisava ligar para o Brasil. Na primeira tentativa para a casa da minha cunhada, deu ocupado. Na segunda e na terceira também. A cada vez minha certeza da gravidade da notícia era maior. Resolvei ligar para a minha secretária.

Era meia noite e meia no meu relógio, sete e meia da noite no Brasil, cedo ainda para o ritmo da agência e, portanto, com muitas chances de haver alguém que me dissesse alguma coisa. "– Mônica, o que aconteceu?" perguntei com a voz trêmula e em soluços, já sabendo a resposta. "– Cascão...foi seu pai...meu Deus não era eu que tinha que te dar esta notícia...foi seu pai Cascão, ele faleceu hoje por volta das três da tarde."

Foi como se uma barragem tivesse se rompido dando vazão a uma enxurrada de lágrimas. "– Eu não queria te dar esta notícia – disse ela, mas eu tinha que passar o fax, seu irmão e sua irmã acharam que seria muito pior esperar você voltar, o choque ia ser pior".

Desliguei rápido e liguei para a minha cunhada, já com a cabeça explodindo "– Celeste, o que aconteceu?", como se precisasse que alguém me confirmasse para acreditar. Ela manteve a voz firme: "– Seu pai faleceu hoje à tarde, Cascão. Ele ficou ruim de novo, sem ir no banheiro, com o intestino preso, aí levaram ele pro hospital...". Não havia necessidade de ouvir mais nada, os soluços dela se misturaram aos meus, ouvi a Rose dizer "– Oh, meu Deus!" e daí para a frente só parei de chorar na parte em que minha cunhada disse que minha irmã e minha mãe foram visitá-lo e estavam com ele quando deu o último suspiro.

Morreu tranquilo, em paz, sem falar nada, disse-me ela. Confirmei se tinha certeza de que minha mãe e a Laura estavam lá mesmo. " – Sim, e só saíram do quarto a pedido do médico, que logo depois confirmou a morte".

Saber que estavam com ele me deixou mais aliviado. Eu estava no meio do mediterrâneo, longe, muito longe de casa. E acabara de perder meu pai sem ter tido ao menos a oportunidade de olhar para ele, segurar sua mão pela última vez e dizer quanto o amava. Mas ele não esteve sozinho. Agradeci a Deus.

Tinham decidido que o enterro seria no dia seguinte. Comecei a pensar num jeito de voltar para casa. Descer no primeiro porto, pegar o primeiro avião e voltar, quem sabe desse tempo. A mente é fantástica, resolve tudo, mesmo o improvável. O provável é que nem houvesse um aeroporto na próxima cidade onde o navio ia atracar. O provável é que todos estivessem querendo enterrar meu pai o mais rapidamente possível para diminuir o sofrimento da minha mãe.

O rapaz que nos ajudou com a ligação balbuciou alguma coisa como "meus sentimentos" e eu e a Rose descemos para a cabine. Sentamos num sofazinho e começamos a rezar em voz alta e a chorar. Rezar e chorar, rezar e chorar...

Porquê ele tinha escolhido aquela aquele dia, aquela hora, justo quando a gente estava longe e sem poder voltar?

Eu só me perguntava porquê, porquê, porquê? Quando cansei de perguntar e de chorar, pedi à Rose que me deixasse ir até o convés. Lá fora, no alto do navio, o mais perto possível do céu, talvez ele me ouvisse e respondesse. Precisava ficar sozinho, precisava falar com ele, precisava entender. Ela concordou, respeitando a minha dor, mas naturalmente preocupada comigo. E eu com ela e com a filha que carregava na barriga. Atravessei todos os imensos e estreitos corredores do navio em passos lentos, cambaleantes, enquanto a música, o barulho dos copos, o riso e as gargalhadas dos turistas compunham uma trilha sonora que em outra situação não me pareceria tão macabra.

Finalmente subi a última meia dúzia de degraus da escada que dava para o convés, sentei em uma das muitas cadeiras azuis e brancas e fiquei olhando para as estrelas no céu e depois para o brilho da lua que formava um extenso tapete prateado sobre as águas calmas do oceano. Ventava um pouco. E perguntei de novo, agora a Deus, porquê ele foi levar meu pai justo quando eu estava longe e impossibilitado de fazer qualquer coisa por ele, ainda que fosse vê-lo uma última vez?

Não esperei resposta, comecei novamente a rezar, repetindo as orações em voz alta e torcendo para que não aparecesse alguém da tripulação me pedindo para descer porque eu não iria obedecer e também não tinha a menor disposição para explicar a quem quer que fosse o que estava fazendo ali à uma e meia da manhã, sozinho, enquanto todos estavam se divertindo no andar de baixo.

Muitas coisas me passaram pela cabeça: que a Rose talvez tivesse razão ao dizer, no quarto, que a vida estava querendo nos mostrar - a nós que vivemos querendo ter o domínio sobre tudo - que não temos domínio sobre nada; que o senhor Adérito, chegada a sua hora, resolveu partir sem nos dizer adeus para poupar a nora, evitar que ela passasse nervoso e prejudicasse seu neto; que a existência cobra uma morte para cada vida que se põe a caminho... e muitas outras coisas que não registrei.

Continuei a chorar e a orar até que uma grande ventania começou a arrastar as cadeiras de um lado para o outro, num balé lindo mas assustador, como linda e assustadora é a natureza, a vida e a morte.

O navio, que até aquele momento mais parecia um hotel cravado no chão, de tão tranquilo, também começou a balançar pra lá e pra cá. Fiquei com medo. Lembrei da Rose sozinha com a bebê dentro da barriga, as duas dentro do quarto, o quarto dentro do navio, o navio dentro do mar. Desci.

Na volta passei por uma sala de leitura, vazia como todas as outras, onde havia uma tv ligada exibindo apenas o logotipo da TVE e captando o sinal da rádio nacional de Espanha. Parei instintivamente na frente do televisor e pude ouvir trechos de um daqueles programas que, no silêncio da madrugada, tratam de ajudar as pessoas que estão sozinhas e sofrendo por alguma razão. O apresentador falava suavemente sobre uma técnica de relaxamento que, através de parapsicologia, podia nos colocar em contacto com seres queridos que tivessem morrido.

Explicou como fazer esse exercício na frente de um espelho...e eu ali ouvindo. Pensando no meu pai e ouvindo. Depois tocou uma música muito bonita e uma apresentadora atendeu um telefonema de uma ouvinte de Sevilha que havia perdido o marido fazia seis meses e queria ler uma mensagem que havia escrito para ele. A moça do programa consolou-a dizendo que duas pessoas que se amavam tanto não podiam estar tão longe assim e que onde estivesse ele estaria ouvindo e eles iriam se encontrar um dia.

Fui embora ouvindo o relato de outra mulher cuja voz um pouco anasalada foi se perdendo no ar atrás de mim...

Ao chegar ao quarto deitei-me ao lado da Rose e, cansado, adormeci. E sonhei. Como nunca havia sonhado em minha vida. Sonhei que fui até o velório e vi meu pai. Não deitado num caixão, frio e sem vida, mas sentado num banco que dava a volta na sala, ao lado das outras pessoas. Agachei-me na frente dele e segurei suas mãos, repetindo-lhe a pergunta ainda sem resposta: porquê resolveu ir embora daquele jeito, sem nos dar nenhuma chance?

Ele estava mais novo, vestia uma capa, calçava botas e, estranhamente, dava umas baforadas num charuto, vicio que nunca teve. Sua pele era branca e tinha um brilho especial, a ponto de tudo em volta dele parecer opaco e fora de foco. Não respondeu. Apenas sorria, com um sorriso largo que ele tinha quando estava muito alegre ou alguma coisa o divertia muito. Era como se tivesse acabado de me pregar uma peça. Mas eu sentia amor em seu olhar e alegria por me ver. Passou a mão suavemente pelo meu rosto. Em seguida levantou-se, com uma agilidade que eu aprendi a conhecer bem em outros tempos, e se esgueirou por um corredor, como se levitasse entre as pessoas. Fui atrás dele gritando "– pai, pai!" mas ele, literalmente, desapareceu.

Um pouco triste, mas em paz, dirigi-me a outra sala ao lado e me sentei.

Sabia que no centro daquela sala havia um caixão e que todos ali estavam velando um corpo, mas eu não o via. Chegaram uns amigos, começaram a falar comigo e a dizer aquelas coisas que se dizem aos que ficam e acordei. Como também nunca havia acordado antes. Era como se tivesse sido arrancado à força do sonho, uma dor física na altura do coração e um pouco suado.

Sentia-me mais cansado do que quando adormeci. Mas tinha uma certeza: eu acabava de me despedir dele, no único tempo e espaço onde o tempo e o espaço não contam. Me senti melhor, olhei para a Rose ao meu lado, lembrei dos sonhos que me contou ter com o pai dela depois que morreu, e voltei a dormir, na esperança de encontrar-me novamente com o meu. Claro que em vão.

O dia seguinte amanheceu ensolarado. Fomos acordados pelo alto-falante avisando que, após a liberação das autoridades portuárias, poderíamos descer à terra. Contei para a Rose o que havia sonhado e falamos um pouco sobre o que vi e senti na noite anterior. Ela lembrou também que um dia antes, segunda-feira (enquanto meu pai estava no hospital) estávamos em Capri, o primeiro lugar onde o navio parou. A ilha era linda, o dia estava lindo, vimos lugares lindos, mas a gente não estava bem. Ela disse várias vezes que não estava bem. Que estava triste por estar num lugar tão maravilhoso e não estar conseguindo aproveitar como gostaria. Eu pensei que era por causa do calor e da bebê.

Fomos com essas lembranças e esses pensamentos, em silêncio, para o café da manhã. Mais ou menos às oito desembarcamos e saímos a caminhar pela cidade, sozinhos, sem guia e sem excursão.

Estávamos em Palermo. A cidade pareceu-me feia, mas não falei nada. Andamos um pouco mais – todo porto é feio – quem sabe mais para o centro, longe dali. Carros e mais carros, centenas de vespas zunindo seus escapamentos, motoristas em carros amassados xingando uns aos outros (entendi melhor a influência italiana sobre São Paulo), filas duplas, motonetas em cima das calçadas, ruelas estreitas, escuras, prédios velhos, escuros, confusão e calor. Todos os carros estacionados, cobertos por uma densa camada de pó, pareciam ter sido abandonados há muito por seus donos. Andamos umas duas horas, eu fazendo as contas do fuso horário e esperando que amanhecesse no Brasil para telefonar, saber se tinham adiado o enterro, já que eu falei que tentaria voltar. A Rose cansada, passando mal com o calor e impressionada com a paisagem da cidade. Mas também não falou nada. Paramos para comprar água e eu tomei um expresso. Andamos mais um pouco procurando a central telefônica. Encontramos uma às onze e meia da manhã, sete e meia no Brasil. Liguei primeiro para o Sr. De La Via, amigo de tantas horas e meu orientador espiritual, já que eu não sabia o que fazer. Ele disse que já tinha falado com a minha família, que o enterro ia ser mesmo ao meio dia, que todos em Cafh já estavam fazendo as orações que sempre fazemos e se estendem por sete dias quando um membro ou alguém da família falece e que não adiantava eu voltar porque em relação ao fato em si eu não podia fazer mais nada e a única coisa que realmente eu podia fazer era orar e me recolher o mais possível neste dia de terça-feira 17 de junho dia do enterro do meu pai.

A seguir liguei para tentar pegar meu irmão em casa. Minha cunhada atendeu e disse que todos estavam no velório no Cemitério do Morumby e que o enterro ia ser ao meio dia. Repetiu que era besteira eu voltar não ia chegar a tempo e não havia nada que eu pudesse fazer. Liguei para a avó da Marina para falar com ela mas tinha acabado de sair. Ia fazer prova e depois para o enterro do avô. Ela falou que queria que eu estivesse lá.

A impotência doeu quase tanto como a perda. Me convenci que não havia nada mesmo que eu pudesse fazer. Saímos da telefônica e caminhamos mais uma meia hora até o navio. Na noite anterior, depois de descer do convés, tinha escrito uma mensagem. Passei logo cedinho por fax para minha secretária e para para um aparelho que mantinha em casa. Recomendei desesperadamente que entregassem o fax à minha filha Marina para que o lesse durante o velório ou no momento do enterro. Foi a única maneira que encontrei de estar presente e de juntar minha alma e minha dor à de todos os que estivessem acompanhando meu pai.

No quarto voltamos a chorar e fiquei o dia inteiro sem sair, ver ou falar com ninguém.

À noite fomos jantar. Pedi à Rose que não contasse nada ao casal de amigos italianos nem ao pessoal da mesa, pra evitar o mal estar. Eles perguntaram porquê a gente não voltou para a festa na noite dos anos 60 e a gente deu uma desculpa qualquer.

Hoje, quarta feira, 18 de junho, o navio parou cedinho na Tunísia e fomos com o grupo conhecer a cidade. Voltamos ao meio dia, almoçamos e enquanto espero para tentar ligar novamente para o Brasil – preciso falar com a Marina e pelo menos com a minha irmã ou meu irmão – me deu vontade de escrever, lembrar cada segundo e registrar tudo neste computador da Rose, para não esquecer nunca mais o que aconteceu na noite de ontem, uma noite sem fim.

Agora eu vou lá em cima tomar um Jack Daniels e fazer um brinde a ele, que continua vivo em mim, em nós.

Em algum lugar do oceano, entre a costa da Africa e da Espanha, 20:30 horas do dia 18 de junho de 1997.


Porquê a água do mar é salgada?

Hoje, 3 de maio, o Facebook me lembrou de algo que escrevi há dois anos atrás sobre a morte do meu pai. Achei melhor transcrever aqui no blog, pra eternizar essa lembrança em algum lugar além do meu cérebro.
Ontem à noite recostado na cama, depois de alguns exercícios e orações, coloquei meu fone de ouvido e adormeci ouvindo minha play list "keep calm". Devo ter ido tão longe e tão fundo que acordei às 4h30 como se tivesse dormido 12 horas. Sem sono, fiquei um pouco acordado e, não sei porquê, lembrei do meu pai. Se estivesse vivo, estaria com 106 anos (nasci temporão, ele já tinha 50). Sr. Adérito, a calma em pessoa. Só o conheci vivo. Recebi a notícia de sua morte pela voz de uma secretária, na cabine de comando de um navio, à 1h da manhã do dia 18 de junho de 1997, em algum lugar do mediterrâneo entre o norte da África e o sul da Itália. A notícia interrompeu uma noite de festa estilo anos 60 onde eu e a Rose, grávida da Olívia Costa, nossa primeira filha, fazíamos uma das coisas que nos dá um grande prazer: dançar. Não é preciso dizer que no dia seguinte, quando o navio atracou em Napoles, vaguei desesperadamente pela cidade, pendurado num fio de esperança de descobrir uma forma de voltar ao Brasil a tempo de me despedir dele. Em vão. O falecimento havia sido no dia anterior e o sepultamento marcado para o meio dia seguinte. Fiquei assim na cama por alguns momentos, depois levantei, continuei ouvindo minha música, fui até à cozinha, fiz um chocolate quentinho e me deu vontade de compartilhar com vocês, meus amigos que a esta hora dormem, a mensagem que enviei pelo fax do navio para que fosse lida pela Marina Costa no velório do avô:
"Meu pai, minha mãe, meus irmãos, Marina querida: Acho que a água do mar é salgada por causa das lágrimas derramadas por tantos portugueses afogados em saudades dos seus, e pela impotência contra a fatalidade, o inevitável. Estou aqui no meio da imensidão azul, chorando por ter perdido o convívio de um pai a quem amava e admirava em seu silêncio e aceitação serena da vida. E choro também por não poder estar aí com vocês. Ontem à uma da manhã, depois de receber a notícia, subi ao convés, o mais próximo do céu que pude, e perguntei a Deus, à lua, às estrelas, porquê me afastaram dele neste momento? E pareceu-me ouvir a voz do pai dizendo: "vai, vai-te embora, não te preocupes..." Depois uma grande ventania começou, arrastando para um lado e para o outro as cadeiras do convés, num balé ao mesmo tempo lindo e assustador. Mas a natureza é assim, linda e assustadora, como a vida e a morte. Quando voltei para o quarto, cansado, depois de chorar e orar...adormeci. E sonhei. Sonhei que estávamos sentados ao lado de vocês, ele com um sorriso lindo e um brilho especial no rosto. Perguntei-lhe mais uma vez porquê fez isso, por quê numa hora em que eu estava tão longe. E ele apenas sorria, sorria como se tivesse acabado de me pregar uma peça. Mas o seu sorriso era de amor. A seguir levantou-se, com uma vitalidade e uma rapidez que eu aprendi a conhecer tão bem em outros tempos, e desapareceu entre as pessoas presentes ao seu próprio velório, enquanto eu corria atrás dele gritando "pai! pai! pai!". Foi-se, como que levitando, enquanto olhava para trás e sorria para mim... Está amanhecendo e eu ainda não sei o que vou fazer. Não quero que prolonguem o sofrimento e a dor esperando por mim. Porque não tenho certeza se conseguirei chegar pra lhe dar um último beijo. Por isso, quero abraçar minha mãe, dizer-lhe que onde meu pai estiver, estará agradecendo sua dedicação e sua paciência. E, certamente, protegendo-a com o manto de seu espírito. Eu, a Rose e a neta que ele não esperou nascer, mas que já a está protegendo também desde agora, estamos tristes. Mas em paz. E juntamos nossos corações aos de vocês para que a Mãe Divina o receba em seus braços e o Pai Celeste guie sua alma para a eternidade. Amamos vocês. Cascão e Rose, 18 de junho de 1997."