segunda-feira, 30 de setembro de 2013

José Mujica na ONU

Discurso de José Mujica na ONU em 2013.

Presidente uruguaio fez um discurso na ONU digno de um grande estadista e líder global, revelando uma estatura política, moral e ética muito acima de qualquer outro de seus pares, incluindo os mandatários das grandes nações desenvolvidas.



"Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.
Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de mudanças funestas, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.
Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz — porque, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.
Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.
Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.
Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembléia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.
Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.
Carrego o dever de lutar por pátria para todos.
Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferenças e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.
A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.
O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.
Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até auto-exclusão.
O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.
Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.
Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.
O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.
Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.
Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.
Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.
A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.
Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.
O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.
Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.
Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.
Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação. Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.
Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fórums e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões...
Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.
Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo. Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos "reclamáveis", que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.
Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.
Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegando a nossos limites biológicos.
Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.
A cobiça, tão negativa e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.
Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.
Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie. Aclaremos: o que é "tudo", essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.

Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.
Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas freqüentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.
Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os governos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.
A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra quando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.
Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.
Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos. Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.
As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.
Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.
Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.
A ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.
Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.
Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.
Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.
Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe. Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.
O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem. É possível arrancar tranqüilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.
Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.
Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso "nós".
Obrigado."


Para ver um vídeo legendado, do discurso de Mujica, clique aqui.

domingo, 5 de maio de 2013

Gerações


A midia digital, que costuma endeusar a si mesma – e nisso ela não é diferente de nenhuma outra, é pródiga em enaltecer a capacidade que têm as gerações Z e M, nascidas ou criadas na era da internet, de fazer várias coisas ao mesmo tempo: abrir telas, postar fotos, trocar mensagens, enquanto ouvem música, falam ao celular, assistem tevê…estudam e fazem lição.

No entanto, esse desespero para (absor)ver tudo, comentar tudo, consumir tudo, na velocidade que é ofertado pela mídia e pelo meio, faz com que a concentração sobre um determinado assunto seja mínima. A absorção e decodificação da informação também é superficial, gerando um “saber coisas” inútil, porque de pouca profundidade. Algo muito similar pode acontecer com as relações, frágeis e virtuais na maior parte do tempo.

Mas, voltando ao finzinho do primeiro parágrafo aí acima, quem tem filhos em idade escolar como eu gasta muita saliva e energia tentando convencê-los, por exemplo, de que só existe uma forma de estudar: isolar-se e concentrar-se. Ir atrás da informação e depois refletir sobre ela, investigá-la e relacioná-la, para compreender, mais do que “saber”.

Só que isso exige esforço, método, paciência, e acima de tudo gosto pelo conhecimento, qualidades que as gerações Z e M parecem não ter, nem estar muito interessadas. E como esses hábitos se criam e fortalecem justamente na adolescência e juventude, talvez estejamos criando gerações superficiais e de pouca fibra.

Bonito é ver que, vez por outra, um desses jovens acorda, como de um transe, e reconhece as limitações do “modelo”, passando a buscas mais significativas. Usando a tecnologia, porque não, mas de forma mais livre, produtiva e inteligente.

É certo que a fila anda e que temos muito a aprender com chegou na festa agora. Mas há coisas que nós, pais e mães das gerações X e Y, também podemos compartilhar. Muito além de um simples “like”. 

domingo, 21 de abril de 2013

Videos legais

Eu sei que está tudo no Youtube. Mas queria dividir aqui, de vez em quando, uma seleçãozinha de videos que, na minha opinião, valem a pena. Vou abrir a seção com este, montado em cima da também maravilhosa música What a Wonderful World. Enjoy it.




quarta-feira, 22 de junho de 2011

Silêncio interior: acalmando o agitado lago da mente.




“O mesmo silêncio que nos permite escutar os outros,
nos permite escutar a nós mesmos.”

Calar e Escutar – Do curso de Cafh: As 10 Palavras do Desenvolvimento Espiritual


Uma noite dessas, tomando uma cerveja com um amigo e tentando ouvir o elegante diálogo entre um piano e um contrabaixo, magistralmente executado pelos dois músicos do bar, meu amigo exclamou: “o mundo é muito barulhento”.


Referia-se à disputa inglória travada entre os instrumentos e a algazarra na mesa ao lado, onde uma dúzia de amigos comemorava o feliz aniversário de um deles. Nada contra aniversários e comemorações barulhentas, mas tudo a favor de fazê-lo em locais apropriados. Ainda bem que, segundo esse mesmo amigo, músicos da noite não dependem de alguém que os escute, porque tocam para si mesmos e isso lhes basta.


Enquanto mudávamos para uma mesa que favorecia um pouco mais os nossos ouvidos, concordei com ele: sim, o mundo anda ensurdecedor, sobretudo para quem vive em metrópoles.

O barulho do trânsito, das buzinas, das sirenes da ambulância, policia e bombeiros, dos bate-estacas, do alto falante do moço que vende pamonhas fresquinhas, do alarme do carro sendo roubado, do cachorro do vizinho, do bebê que chora sem parar, do pai que troca berros com a mãe e insultos com o filho, do caminhão que recolhe caçambas às 3 da manhã bem embaixo da sua janela.


Por isso, para manter a saúde do corpo e da mente, é aconselhável retirar-se periodicamente junto à natureza, buscando lugares ainda calmos onde o espírito pode se entreter com o canto suave e multicolorido dos pássaros e recordar o barulhinho bom da água correndo no riacho, do farfalhar das folhas nas árvores ou simplesmente os sons...do nada.

No entanto, há um outro barulho que passa despercebido e pode ser ainda mais daninho do que os ruídos medidos em decibéis. E que consome boa parte da energia que deveria estar alimentando a nossa saúde e bem-estar. É o barulho, muitas vezes ensurdecedor, do nosso “diálogo interno”. Esse que não cessa, que mantemos permanentemente ligado em forma de pensamentos e sentimentos desordenados, de pré-conceitos, de crítica e murmuração mental.


Sim, nosso interior pode ser bem mais barulhento do que o nosso entorno.


Porque pensamentos vão e vêm sem pedir licença nem respeitar sua vez na fila. Sentimentos afloram sem que tenhamos muito controle sobre eles, determinando atitudes e ações das quais frequentemente nos arrependemos.


Pense: quantos de seus pensamentos e sentimentos são eleitos conscientemente? Quantas das imagens – e com elas as emoções – que desfilam pela sua cabeça o dia todo tiveram autorização para entrar em sua tela mental? Quantas pessoas você já viu falando sozinhas na rua, vítimas de um evidente transtorno interior? Quantos psicólogos e psiquiatras se ocupam cuidando de pacientes que são vítimas de si próprios?


O antídoto possível e eficaz para tudo isso é a prática do “silêncio interior”. Aquele estado que advém de hábitos simples, mas que nem sempre encontram espaço em nossa atribulada agenda diária: o recolhimento, a contemplação, a meditação e a oração.


O silêncio interior, além de tudo, é uma das mais poderosas ferramentas de autoconhecimento. Porque ao fazer silêncio nos colocamos em contato conosco mesmos, com o que verdadeiramente somos. Ao ouvir o que pensamos e observar o que sentimos aprendemos a re-conhecer-nos, a avaliar a forma como respondemos aos estímulos que vêm de fora, e a compreender porquê o fazemos de uma maneira determinada e não de outra.


Mas, alcançar o silêncio interior exige algum treino. E começa com o silêncio exterior. Uma boa forma de começar é fazendo pequenos momentos de detenção durante o dia. Interrompa por alguns minutos o que você está fazendo para pensar porquê o está fazendo, e porquê dessa maneira e não de outra. Quando estiver atuando, procure afastar-se de si mesmo e ver-se de fora, como espectador. Avaliando sua relação com os demais e as respostas que está dando à vida. E, claro, separe um tempo, por menor que seja, no início da manhã e no final do dia, para recolher-se e pensar calmamente em como está vivendo sua vida, cuidando de si mesmo e dos seus afetos. E também para agradecer a Deus, ao Grande Arquiteto do Universo, à fonte da vida, ou que nome você Lhe queira dar, pelas bençãos recebidas e das quais a maior é o fato de você estar vivo e ter todas as possibilidades de crescer interiormente e desenvolver-se como ser humano.


Essas pequenas práticas podem evoluir para uma meditação diária, acompanhada pelo hábito de fazer leituras inspiradoras, ouvir boa música e ter mais momentos consigo mesmo. A meditação e a prática da oração irão, pouco a pouco, acalmando as águas agitadas da mente e lhe dando maior controle sobre ela e sobre os seus pensamentos e sentimentos.


Monitore permanentemente o seu diálogo interno e invista na prática do silêncio. Em pouco tempo você vai sentir que o retorno em paz interior, harmonia, equilíbrio e saúde mental vale a pena.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A árvore

É justamente no efêmero que se percebe o que é duradouro
É na surpresa da tragédia que se abrem os olhos
E nos olhos fechados que se revela a alma
Nas feridas da carne desfruta-se o sabor da vida

Na falta de palavras os verdadeiros significados
Na solidão de uma cama o calor de um abraço
Na saudade vindoura a tristeza da perda eminente
A maior limitação imposta ao homem é a impotência

É ela que separa o que é divino e o que é humano,
a linha divisória entre o que somos e o que gostaríamos de ser
A lição mais dura e a mais importante de se aprender
Com um olhar desaprendi tudo que achava que tinha aprendido

Todos os medos, desejos, teorias, alegrias, tristezas, conceitos e
pré-conceitos foram derrubados, humilhados e esquecidos.
Com apenas um olhar me apequenei

Quer saber onde mora Deus?
Mora nos olhos de um enfermo.

Paulo Cruz

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

TORCIDAS

Não gosto de torcidas, por princípio. E vai muito além do futebol. Quase sempre sinônimo de fanatismo, intolerância, parcialidade e comodismo. Aliás, a coisa mais fácil em qualquer "jogo" é ficar de um dos lados. Difícil é abarcar o todo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Fazer um uso sábio dos recursos disponíveis

Em 8 de janeiro de 2009 um terremoto de 6,2 pontos na escala Richter atingiu duramente o povoado de Cinchona, a 1300 m de altitude, na região montanhosa de Eredia, na Costa Rica, provocando uma devastação poucas vezes vista mesmo num país acostumado a fortes abalos sísmicos.

A 1 km dali está localizada a Comunidade de Cafh e também a sede da El Ángel, fábrica de alimentos mantida e administrada pelos membros dessa Comunidade*.

Graças ao tempo recorde em que foi feita a recuperação das instalações da fábrica, bem como pelo apoio material e emocional dado pelos membros de Cafh aos funcionários e à população da região, a ONU conferiu um prêmio especial à El Ángel no Dia Mundial da Alimentação.

Na ocasião, o atual Diretor Espiritual mundial de Cafh, Sr. Jose Luis Kutscherauer, que viveu muitos anos nessa Comunidade e é um dos seus principais mentores, proferiu algumas palavras aos presentes, fazendo uma referência ao que chamamos em Cafh de 'ECONOMIA PROVIDENCIAL', um conceito e uma atitude que procuramos viver em nossa vida.

Se você preferir ler o discurso original em espanhol, acesse: http://nacionesunidas.or.cr/index.php?option=com_content&task=view&id=255&Itemid=121

* Todas as Comunidades de Cafh são auto-sustentáveis e seus membros, a par da vida de recolhimento e desenvolvimento espiritual, se dedicam a diversas atividades, tais como o ensino infantil, panificação, produção de doces, geléias e outros alimentos, agricultura, etc.


"É uma honra para mim representar a El Ángel neste evento e receber, em nome dos nossos parceiros e colaboradores, este prêmio que nos foi concedido.

Frente a uma instituição da importância da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, o nosso trabalho pode parecer insignificante. No entanto, é nossa convicção fazer em cada um de nós, desde o lugar que ocupamos na sociedade, o melhor esforço para realizar em si mesmo e em nosso entorno, o que queremos que aconteça no mundo.

Chegamos ao país em 1977 e encontramos um povo maravilhoso que teve a audácia de construir um destino de paz, nesses anos fatídicos para a América Latina e o mundo. Encontramos um pequeno grupo de costarriquenhos que nos acolheu de braços abertos em Cinchona, então, uma pequena aldeia de cerca de seis famílias.

Impressionados com a beleza deslumbrante da floresta nublada da Costa Rica, nos apaixonamos pelo país e sua gente, pelos seus recursos naturais, e pelo que nós consideramos seu principal recurso: o espírito pacífico e ousado que habita em cada um dos cidadãos costarriquenhos.

Vimos, desde este pequeno canto do mundo, aquilo que poderia ser demonstrado de forma evidente: que se podem dar passos certeiros na construção da paz e de uma sociedade melhor para todos.

Os membros do grupo El Angel somos pessoas de paz, de trabalho e de amor por uma vida simples e comprometida com o meio ambiente. E praticamos o método de vida de Cafh, um caminho de desenvolvimento espiritual que se baseia em princípios simples:

  • Deus é o princípio fundamental do Universo
  • Como seres humanos temos o direito à liberdade de pensar e decidir sobre nossas vidas sem a interferência de outros
  • O direito à liberdade implica responsabilidade no exercício dessa liberdade. O desenvolvimento da responsabilidade faz com que o exercício da liberdade dê frutos de paz e felicidade
  • A responsabilidade é desenvolvida por meio da expansão da consciência e de uma compreensão mais universal do mundo e da vida

Todos os seres humanos contamos com o livre arbítrio, que nos abre um campo de possibilidades insuspeitadas até para nós mesmos. Acreditamos que possuimos dois bens básicos que permitem gerar um processo positivo para o desenvolvimento da sociedade:

  • Por um lado, o nosso estado de consciência, que nos dá o grau de sabedoria que orienta nossas escolhas, decisões e ações
  • E por outro lado, os recursos, ou seja, os bens materiais, mentais e espirituais que todos os seres humanos dispomos para viver e nos desenvolvermos, e que são o capital que temos para realizar o que a nossa consciência nos diz para fazer, pensar ou sentir.

É neste campo, dos recursos, onde lidamos em Cafh com o conceito de Economia Providencial, e que buscamos implementar em todas as ações desenvolvidas pela El Ángel.

Economia Providencial é, para nós, o uso sábio dos recursos disponíveis, tanto no âmbito pessoal como social, para o adiantamento pessoal e o bem de todos os seres humanos.

Dizemos "economia" porque se trata da produção, conservação e multiplicação dos recursos necessários e úteis ao desenvolvimento de cada ser humano. E dizemos "providencial" no sentido de que provê o que nós necessitamos, bem como todos os seres, para alcançar o fim desejado, neste caso, a plena realização das nossas melhores possibilidades de vida sobre a Terra.

A Economia Providencial prevê a atuação em três áreas:

  • A utilização dos recursos disponíveis
  • A reserva ou poupança desses recursos
  • A multiplicação dos recursos

Este conceito, para ser implementado, pressupõe alguns requisitos básicos:

  • O sentimento de posse é substituido pelo sentido de participação
  • O direito de usufruir dos recursos é acompanhado por um senso de responsabilidade na utilização dos bens sociais e pessoais
  • A utilização e exploração dos bens pertencentes à Terra tem que considerar as necessidades sociais de uso e conservação desses bens
  • os bens pessoais são próprios, mas dentro de um marco de referência do bem comum

De nossa perspectiva, há vários caminhos para aliviar a fome no mundo quando aprendemos a focar nossa ação de forma participativa e inclusiva.

Organizações como a FAO, que proporciona recursos para que as pessoas e os países ajudem a si mesmos; que luta para melhorar a nutrição, aumentar a produtividade agrícola, elevar os padrões de vida das populações rurais e contribuir para o crescimento da economia mundial, é um desses importantes caminhos.

Mas nem a FAO, nem qualquer outra instituição, pode fazer o que só a vontade pessoal focada no bem comum é capaz.

Pertencemos a uma minoria da humanidade que teve a graça de ser abençoada com uma família que nos alimentou, cuidou e formou; com uma alimentação adequada para desenvolver todas as nossas faculdades, com educação, com um espaço para desenvolver-nos, com uma moradia e com liberdade de pensamento e ação. Se nós, como grupo privilegiado de seres humanos, a partir do nosso lugar, da nossa casa, abrimos as mãos para devolver um pouco do muito que temos recebido da sociedade, iremos, sem dúvida, dando forma ao sonho de uma sociedade mais justa e equitativa. Este sonho está ao alcance das nossas mãos e da nossa vontade.

Ao tomar consciência da relação que estabelecemos com nossas necessidades e com nossos bens, fruto do nosso trabalho, podemos melhorar o nosso senso de responsabilidade social. É essencial observar que a nossa felicidade é incompleta sem a felicidade de todos.

Em cada um de nós há uma fonte permanente de bens de todos os tipos. Este dom da vida continua e se multiplica quando evitamos aplicar a nossa vontade apenas para satisfazer os nossos desejos pessoais, sem levar em conta as necessidades dos outros. Pensamos que é responsabilidade de cada ser humano deixar este rastro de responsabilidade social como um bem para a humanidade.

A nossa proposta em Cafh e na El Ángel, como mencionei anteriormente, é vivermos em nós mesmos o que desejamos para todos os seres humanos. Com este espírito, nos animamos a pensar um pouco além da realidade que hoje vivemos neste mundo de sofrimento.

- Em um mundo onde o denominador comum é buscar apenas o ganho pessoal, nos dedicamos a que nosso trabalho possa impactar positivamente o meio em que vivemos.

- Em um mundo dividido, onde se luta pelo predomínio das próprias idéias, nós escolhemos o caminho mais amplo de aceitar a diversidade, onde cabem todas as formas de sentir e pensar.

- Em um mundo onde predomina a atitude de exigir que os outros mudem, procuramos desenvolver o nosso trabalho em paz e harmonia com todos os seres e com o meio ambiente.

- Em um mundo onde a violência é a forma mais comum de resolver conflitos e diferenças, preferimos o trabalho silencioso em nós mesmos, porque acreditamos que é a maneira mais simples de caminhar em direção à construção de uma realidade mais acorde com nossos sonhos.

Com a graça divina e o esforço humano, o caminho para uma sociedade mais harmoniosa, pacífica e justa, não é apenas um sonho, uma utopia. É uma realidade que pode ser construída.

Muito obrigado."

José Luis Kutscherauer